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. 2023 Apr 27;120(5):e20220467. [Article in Portuguese] doi: 10.36660/abc.20220467
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Características Clínicas e Manejo de Pacientes Avaliados por Teleconsulta Cardiológica na Região Brasileira com Maior Número de Cidades Isoladas

Tarso Augusto Duenhas Accorsi 1, Renato Paladino Nemoto 1, Jairo Tavares Nunes 1, Antônio Fernando Barros de Azevedo Filho 1, Flavio Tocci Moreira 1, Karen Francine Kohler 1, Karine de Amicis Lima 1, Bruna Dayanne Reges Amaral 1, Renata Albaladejo Morbeck 1, Carlos Henrique Sartorato Pedrotti 1
PMCID: PMC10263392  PMID: 37162075

Resumo

Fundamento

As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no mundo. Regiões brasileiras geograficamente remotas e de baixa renda carecem de consultas especializadas. Não se tem conhecimento total acerca do manejo por telemedicina dessa população por parte de cardiologistas.

Objetivos

Analisar a teleconsulta cardiológica na região brasileira com maior número de municípios isolados.

Métodos

Entre fevereiro de 2020 e outubro de 2021, pacientes da Região Norte do Brasil avaliados por médicos generalistas locais foram encaminhados para avaliação cardiológica por telemedicina. Foram analisados os motivos do encaminhamento, dados demográficos, histórico clínico, exames físicos, exames complementares, medicamentos e prescrições pré e pós-telemedicina (considerou-se p<0,05 como estatisticamente significativo).

Resultados

Analisamos 653 pacientes. A taxa de frequência foi de 85,7% (53,1% do sexo feminino, idade média: 54,2±6,5 anos). Os principais motivos de encaminhamento foram sintomas cardiovasculares (58,1%) e fatores de risco entre pacientes assintomáticos (13,3%). Apenas 12,6% apresentava alguma doença diagnosticada. A maioria dos pacientes havia passado por exame físico e eletrocardiogramas regulares. Poucos tinham exames complementares recentes. A prescrição de bloqueadores dos receptores da angiotensina (BRA), bloqueadores dos canais de cálcio e estatinas aumentou significativamente, enquanto a de digoxina, betabloqueadores não cardíacos e ácido acetilsalicílico (AAS) diminuiu na primeira teleconsulta. A maioria dos exames complementares solicitados era de baixa complexidade e custo: eletrocardiograma (28,2%), radiografia de tórax (14%), ecocardiograma (64,5%) e exames de sangue (71,8%). Para 2,1% dos pacientes, foram indicadas intervenções, e 8% recebeu alta após a primeira consulta.

Conclusão

A teleconsulta cardiológica sob demanda contribui para a otimização do tratamento das doenças cardíacas. A maioria dos pacientes foi encaminhada com diagnósticos sindrômicos sem exames complementares prévios. A avaliação especializada solicitada geralmente estava disponível localmente e com baixo custo, mas impedia a alta precoce. Capacitação local poderia otimizar o encaminhamento.

Keywords: Telecardiologia, Consulta Remota, Telemedicina, Encaminhamento e Consulta, População Suburbana

Introdução

A telemedicina (TM) se tornou um recurso essencial para o sistema de saúde, pois fornece assistência com boa relação custo-benefício por meio de ações imediatas.1 Embora diversos tipos de avaliações virtuais de pacientes estejam em prática desde a década de 1970, a avaliação por TM aumentou na década atual.2 Evidências científicas progressivas corroboram o uso da TM em diversos cenários.3 Algumas populações, principalmente em áreas remotas com barreiras geográficas, carecem cronicamente de assistência médica presencial e financiamento.4 A TM tem imenso potencial de fornecer avaliações essenciais a essas populações, seja por um generalista ou especialista.5 , 6

Segundo o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a Região Norte do Brasil possui mais de 12.500.000 habitantes, sendo que pelo menos 20% vivem em áreas remotas,7 distantes dos centros urbanos ou distantes de locais habitados, e de difícil acesso. Essa região é a maior do Brasil, caracterizada pela floresta amazônica (densa, com dificuldade de acesso a serviços de saúde), com a menor densidade populacional e Índice de Desenvolvimento Humano do país ( Figura 1 ).8 Além disso, a Região Norte tem a menor densidade de serviços médicos do país, com uma média de um médico por mil habitantes, mas chegando a 0,2 por mil habitantes em áreas remotas.9 Em uma análise recente das estatísticas de saúde no Brasil, as doenças cardiovasculares foram a principal causa de morte nessa região, com pior prognóstico do que em outras áreas com maiores níveis de desenvolvimento.10 Em fevereiro de 2020, o governo brasileiro lançou um programa de teleconsulta em cardiologia nesta região, com o objetivo de reduzir a carga de doenças cardiovasculares.11

Figura 1. – Mapa do Brasil representando os valores dos índices de vulnerabilidade socioeconômica. Os estados marcados com alfinete vermelho correspondem à Região Norte do país. Adaptado de Rocha et al.8.

Figura 1

As evidências corroboram o estabelecimento da TM como estratégia para altos níveis de satisfação relacionados às avaliações, bem como redução dos tempos gastos por especialistas e morbimortalidade em alguns grupos de doenças cardiovasculares (principalmente pacientes com insuficiência cardíaca).12 , 13 No entanto, os principais motivos de encaminhamento para especialistas, características clínicas, status de tratamento atual e tratamento por TM não são totalmente conhecidos. Esses dados podem presumivelmente realinhar e adaptar o projeto atual e orientar outras iniciativas remotas com foco em uma estratégia custo-eficiente.

O objetivo deste estudo foi analisar os dados de atendimento relacionados às teleconsultas cardiológicas por parte de pacientes da região brasileira com as cidades mais isoladas.

Materiais e métodos

Este foi um estudo descritivo retrospectivo envolvendo um único centro de TM (Hospital Israelita Albert Einstein) que foi referência para 104 centros com atendimento presencial na Região Norte do Brasil relacionados ao programa de assistência médica especializada do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (PROADI) por meio de TM, do Ministério da Saúde, Brasil ( Figura Central ).

Figura Central. : Características Clínicas e Manejo de Pacientes Avaliados por Teleconsulta Cardiológica na Região Brasileira com Maior Número de Cidades Isoladas.

Figura Central

Benefícios da teleconsulta cardiológica em cidades isoladas. O mapa ilustra as unidades de saúde da Região Norte do Brasil integrantes do programa de atendimento médico especializado por telemedicina. As marcações em verde indicam os locais dos serviços participantes. As marcações em cinza indicam os locais para futuras instalações de equipamentos. Os asteriscos indicam locais extras não previstos inicialmente pelo Ministério da Saúde. Mapa do Google Maps, idioma português. DM: diabetes melito; PROADI: Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde por meio de TM, do Ministério da Saúde.

Os pacientes foram previamente avaliados por médicos generalistas da comunidade que solicitaram consulta especializada em cardiologia. De acordo com os procedimentos de agendamento do sistema de saúde local, os pacientes foram encaminhados para consulta por TM como alternativa à consulta com especialista. Todas as avaliações remotas deste programa incluíram o paciente ao lado do clínico geral da unidade de saúde com o cardiologista do centro de TM em tempo real. Todas as instalações contavam com equipamentos modernos para uma conexão rápida à internet com áudio e vídeo. Realizou-se a teleconsulta após a confirmação do perfeito funcionamento de áudio e imagem ( Figura 2 ). Os médicos de plantão que trabalhavam no posto de saúde não eram necessariamente os médicos que encaminhavam o paciente para avaliação especializada. Tiveram acesso ao prontuário do paciente e ao motivo do encaminhamento e participaram conjuntamente da teleconsulta. Os pacientes tiveram consultas com duração de 30 minutos, e todos os dezoito cardiologistas da telemedicina trabalharam por quatro horas consecutivas e foram previamente treinados de acordo com os protocolos institucionais de TM. Ao final de cada avaliação, o clínico geral do local recebia o laudo online do especialista e prosseguia à avaliação com reforço de esclarecimentos, agendamento de exames e prescrições, além do preenchimento do prontuário local.

Figura 2. – Imagem externa de uma unidade de saúde. Consulta cardiológica sob demanda.

Figura 2

Incluímos pacientes consecutivos avaliados de fevereiro de 2020 (início do programa) a outubro de 2021. O atendimento foi substancialmente interrompido ao longo desta operação devido à pandemia de COVID-19, com retomada progressiva desde março de 2021. Do prontuário da TM, foram analisados os seguintes parâmetros: motivo do encaminhamento, dados demográficos, histórico clínico e exame físico, bem como avaliação pré e pós-TM quanto a exames, medicamentos, diagnósticos e prescrições.

Análise estatística

As principais estatísticas foram predominantemente descritivas. Utilizou-se o teste de Kolmogorov-Smirnov para a verificação de normalidade dos dados. As variáveis contínuas foram descritas como média e desvio padrão (DP), e as variáveis categóricas foram descritas como números absolutos e porcentagens. A única comparação foi realizada entre as prescrições por meio do teste de McNemar. Valores com p<0,05 foram considerados estatisticamente significativos, e utilizou-se o software IBM-SPSS para Windows versão 22.0 para cálculos estatísticos.

Resultados

Foram avaliados 653 pacientes agendados de 17/02/2020 a 04/10/2021, com taxa de comparecimento às consultas de 85,7%. A maioria era do sexo feminino, com idade média de 54,2 anos. Houve forte evidência de pacientes de baixa renda caracterizados por nível educacional; o principal motivo do encaminhamento foi a presença de pelo menos um dos seguintes sintomas: dispneia, dor torácica, síncope ou palpitações. A maioria dos pacientes não apresentou eventos cardiovasculares maiores, apesar da presença de fatores de risco para doenças cardiovasculares na maioria dos pacientes avaliados; 60,1% apresentava hipertensão, seguida de dislipidemia, tabagismo e diabetes mellitus. Poucos referiram praticar atividade física regular ( Tabela 1 ). Apenas alguns sintomas relacionados a doenças cardiovasculares foram explorados durante a teleconsulta, e um médico local guiado por um cardiologista remoto realizou um exame físico. O sintoma mais comumente relatado foi dor precordial, mas apenas 26,1% dos pacientes tinha alta suspeita de cardiopatia isquêmica. Houve relatos de dispneia por 1/3 dos pacientes, e alguns deles se encontravam na classe funcional III ou IV da NYHA. Surpreendentemente, 151 (26,8%) pacientes palpitações, enquanto a síncope foi raramente observada. Mediu-se frequência cardíaca e pressão arterial em todos os pacientes antes da teleconsulta, com média e desvio padrão de 76,9±13,8, 136,4±67,3 (sistólica) e 82,1±13,9 (diastólica), respectivamente. Muitos pacientes apresentaram exame físico normal, com poucos casos de sopro ou sinais de insuficiência cardíaca detectados ( Tabela 2 ).

Tabela 1. – Comparecimento e características demográficas e clínicas basais.

Variável Descrição
  média±DP
Idade (anos) 54,2±16,5
  n (%)
Comparecimento positivo 563 (85,7)
Sexo  
Masculino 264 (46,9)
Feminino 299 (53,1)
Nível de Escolaridade  
Nenhuma escolaridade formal 181 (34,5)
Ensino fundamental completo 56 (10,7)
Ensino fundamental completo 68 (13)
Ensino médio incompleto 53 (10,1)
Ensino médio completo 135 (25,8)
Nível universitário incompleto 15 (2,9)
Nível universitário completo 16 (3,1)
Motivo do encaminhamento  
Pelo menos um destes: dispneia/dor torácica/síncope/edema/palpitação 327 (58,1)
Fatores de risco para doenças cardiovasculares 75 (13,3)
Arritmia diagnosticada 31 (5,5)
Doença arterial coronariana diagnosticada 18 (3,2)
Insuficiência cardíaca diagnosticada 13 (2,3)
Valvopatia diagnosticada 9 (1,6)
Outras 90 (16)
Histórico clínico basal  
Hospitalização cardiovascular anterior 52 (9,2)
Angioplastia coronariana 11 (2)
Revascularização miocárdica 11 (2)
Acidente vascular cerebral 28 (5)
Doença arterial obstrutiva periférica 7 (1,2)
Hipertensão 338 (60,1)
Glicemia de jejum alterada 28 (5)
Diabetes mellitus 87 (15,5)
Dislipidemia 164 (29,1)
Atividade física regular 53 (9,4)
Tabagismo 103 (18,3)
Condição crônica não cardiovascular  
Doenças respiratórias 18 (3,2)
Doenças do aparelho digestivo 24 (4,3)
Doenças do aparelho geniturinário 21 (3,7)
Doenças reumatológicas 20 (3,6)
Doenças psiquiátricas/neurológicas 41 (7,3)
Doenças endocrinológicas 35 (6,2)
Doenças hematológicas/imunes 4 (0,7)
Alcoolismo 24 (4,3)

Tabela 2. – Características clínicas observadas na consulta e exames complementares recentes.

Variável Descrição
  n (%)
Dispneia 167 (29,7)
Classe Funcional da NYHA  
I/II 142 (95,5)
III/IV 25 (4,5)
Dor precordial 277 (49,2)
Tipos de dor precordial  
Tipo D — definitivamente não é angina 96 (34,6)
Tipo C — provavelmente não é angina 109 (39,3)
Tipo B — provavelmente é angina 44 (15,9)
Tipo A — definitivamente é angina 28 (10,2)
Angina grau no tipo A/B segundo a Canadian Cardiovascular Society  
I/II 55 (76,6)
III/IV 17 (23,4)
Palpitações 151 (26,8)
Síncope 14 (2,5)
Sopro 26 (4,6)
Estase jugular 8 (1,4)
Edema periférico 32 (5,7)
Estertores na ausculta dos pulmões 13 (2,3)
Eletrocardiograma  
normal, n (%) 252 (59,3)
fibrilação/flutter atrial, n (%) 11 (2,6)
qualquer grau de síndrome do nó sinusal ou bloqueio atrioventricular 18 (4,2)
qualquer sobrecarga de câmaras cardíacas 69 (16,2)
repolarização alterada inespecífica 38 (8,9)
outros 37 (8,7)
Radiografia de tórax sugestiva de qualquer doença cardíaca 21 (45,7) / n=46
Ecocardiograma (n=82)  
normal 39 (47,6)
fração de ejeção ventricular esquerda <50% 7 (8,5)
hipertrofia ventricular esquerda 18 (22)
valvopatia importante 12 (14,6)
Hipocinesia segmentar ventricular esquerda 5 (6,1)
outros 1 (1,2)
Holter alterado (batimentos ventriculares prematuros, taquicardia, bradicardia) (n=30) 16 (53,3)
Teste ergométrico com alterações de isquemia (n=20) 0 (0)
Cateterismo coronariano cardíaco (n=20)  
normal 7 (35)
Doença arterial coronariana não significativa 5 (25)
Doença arterial coronariana obstrutiva 8 (40)
  média+DP
Frequência cardíaca, média + DP 76,9 ± 13,8
Pressão arterial sistólica, média + DP 136,4 ± 67,3
Pressão arterial diastólica, média + DP 82,1 ± 13,9

Foram realizados eletrocardiogramas em todos os pacientes, sendo a maioria normal. Outros exames, como ecocardiogramas e testes ergométricos, foram realizados em menor número de pacientes, também com resultados primordialmente normais. Os casos foram conduzidos comparando-se prescrições basais anteriores com prescrições de teleconsulta e descrevendo-se os exames complementares necessários ( Tabela 3 ). Todas as prescrições de medicamentos foram alteradas em alguma medida, mas apenas ARAs, digoxina, betabloqueadores não-IC, AAS, bloqueadores dos canais de cálcio e estatinas foram estatisticamente significativos. A maioria dos novos exames solicitados era de baixa complexidade e baixo custo, como eletrocardiograma, radiografia de tórax, ecocardiograma e exames de sangue. O teste ergométrico foi a avaliação não invasiva mais comum da cardiopatia isquêmica, sendo solicitado em 31,8% dos casos. Exames mais complexos, como tomografia computadorizada (TC) e cateterismo cardíaco, eram incomuns. Muito poucos pacientes foram indicados para intervenção cirúrgica ou transcateter.

Tabela 3. – Administração de medicamentos e novos exames solicitados.

Medicação (n=563) Prévia n (%) Após a teleconsulta n (%) p*
IECA 31 (5,5) 47 (8,3) 0,596
BRA II 94 (16,7) 123 (21,8) <0,001
Betabloqueador para IC 26 (4,6) 39 (6,9) 0,461
Espironolactona 19 (3,4) 13 (2,3) 0,201
Sacubritril – valsartana 0 (0) 1 (0,2) >0,999
Diuréticos 62 (11) 78 (13,9) 0,579
Digoxina 8 (1,4) 2 (0,4) 0,008
Betabloqueador não-IC 50 (8,9) 26 (4,6) 0,024
AAS 75 (13,3) 57 (10,1) <0,001
Inibidores de P2Y12 5 (0,9) 7 (1,2) >0,999
Varfarina 2 (0,4) 2 (0,4) 0,289
DOAC 1 (0,2) 5 (0,9) 0,375
Bloqueador de canal de cálcio 33 (5,9) 36 (6,4) 0,007
Antidiabéticos orais 2 (0,4) 1 (0,2) 0,289
Insulina 5 (0,9) 3 (0,5) >0,999
Novos antidiabéticos orais 2 (0,4) 1 (0,2) 0,289
Estatina 44 (7,8) 80 (14,2) <0,001
Fibrato 5 (0,9) 1 (0,2) 0,727
Nitrato 7 (1,2) 4 (0,7 0,804
Exames solicitados, indicação de intervenção e alta (n=563) n (%)
Ecocardiograma 159 (28,2)
Radiografia de tórax 83 (14,7)
Ecocardiograma 363 (64,5)
Exames de sangue 404 (71,8)
Teste ergométrico/cintilografia miocárdica 179 (31,8)
MAPA 86 (15,3)
Qualquer ultrassonografia 18 (3,2)
Qualquer TC 36 (6,4)
Cateterismo cardíaco 31 (5,5)
Intervenção 12 (2,1)
Alta 45 (8)

IECA: inibidores da enzima conversora de angiotensina; BRA: bloqueadores dos receptores da angiotensina; IC: insuficiência cardíaca; AAS: ácido acetilsalicílico; DOAC: anticoagulantes orais diretos; MAPA: Monitorização ambulatorial da pressão arterial; TC: tomografia computadorizada. *Teste de McNemar.

Discussão

Este é o primeiro estudo a analisar as características e conduta das consultas cardiológicas por TM sob demanda para populações de baixa renda em áreas remotas do Brasil. Considerando a nova implantação desse programa e as dificuldades relacionadas às características geográficas e demográficas da Região Norte do Brasil, que possui áreas isoladas e baixa proporção de médicos por habitante, a taxa de atendimento positivo de 85,7% foi satisfatória. Por exemplo, os médicos locais relataram que muitos pacientes tiveram dificuldades para acessar o local de consulta, com viagens de barco demorando mais de um dia. Além disso, muitos pacientes precisavam de acompanhantes para ajudá-los a entender as explicações básicas sobre o tratamento.

Percebemos algumas diferenças nas estatísticas mais atuais ao analisar os resultados da coleta de dados. Por exemplo, o número de teleconsultas cardiológicas para pacientes do sexo feminino foi ligeiramente superior ao do sexo masculino (53,1 vs. 46,9%), diferindo dos resultados do artigo de estatísticas cardiovasculares brasileiras de 2020, em que a prevalência global de doenças cardiovasculares (DCV) na Região Norte foi maior no sexo masculino (54%).10

Os principais motivos de encaminhamento foram dor torácica, dispneia, palpitações e síncope. Em geral, os perfis de complexidade dos pacientes avaliados foram considerados baixos. Foram observadas características clínicas de baixa probabilidade de angina e doença arterial coronariana (resultando no baixo número de intervenções diagnósticas e terapêuticas indicadas). A maioria dos pacientes com dispneia foi classificada como dispneia não limitante, com características multifatoriais. Observou-se também baixa taxa de infartos prévios, cirurgia de revascularização do miocárdio e disfunção ventricular esquerda. A incidência de síncope foi baixa, e a anormalidade mais significativa identificada no teste de Holter de 24 horas foram extrassístoles isoladas.

Na avaliação clínica, os principais fatores de risco identificados para doenças cardiovasculares foram obesidade, sedentarismo, hipertensão e diabetes mellitus, condizente com o aumento mundial da prevalência da síndrome metabólica, conforme demonstrado por Rissardo et al., que estudaram os perfis de risco cardiovascular de homens e mulheres em Santa Maria, pequena cidade da região sul do país, no período de 2012 a 2016.14 Curiosamente, a prevalência de fumantes foi baixa, talvez pela eficácia das campanhas de conscientização contra o tabagismo.

Os níveis médios de pressão arterial sistólica e diastólica apresentaram tendência à pré-hipertensão. No entanto, possíveis vieses de medição e hipertensão do avental branco devem ser considerados.15

Também observamos que as teleconsultas cardiológicas foram uma excelente oportunidade para ajustes de medicamentos. Quando comparamos os dados do estudo REACT 2013, que avaliou os perfis de prescrição de medicamentos de acordo com as evidências, observamos que a taxa de inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA) prescritos (53%) foi semelhante à de nossos achados.16 Antes das teleconsultas, 13% dos pacientes faziam uso de antiplaquetários (somente AAS), número bem inferior ao avaliado no estudo REACT (78%); no entanto, após as teleconsultas, o número diminuiu ainda mais significativamente.16 A grande maioria dos usuários de AAS o fazia desnecessariamente, pois a taxa de eventos cardiovasculares prévios era baixa. Talvez a mudança mais significativa tenha ocorrido nas prescrições de estatinas, que praticamente dobraram após as teleconsultas. Houve pouco uso de estatinas (7,8%) antes das teleconsultas, mesmo entre os pacientes com indicação de prevenção primária.

Esse achado é consistente com o perfil de risco esperado para uma população com fatores de risco não controlados. Nascimento et al.17 analisaram a prevalência do uso de estatinas no Brasil; dos 6.511 pacientes entrevistados, apenas 9,4% faziam uso de estatinas, sendo sinvastatina (90,3%), atorvastatina (4,7%) e rosuvastatina (1,9%) as mais utilizadas. A má adesão foi descrita por 6,5% dos pacientes.17 - 19 Apesar do aumento do número de pacientes em uso de estatinas após as teleconsultas, o número foi ainda inferior ao observado no REACT, talvez pelo maior número de pacientes com maior risco cardiovascular.16 O uso de betabloqueador fora do contexto de insuficiência cardíaca ou insuficiência coronariana foi suspenso em 65,7% dos pacientes, principalmente para tratamento de hipertensão arterial isolada (sem outras comorbidades). Os betabloqueadores representam a terapia de segunda linha no tratamento dessa patologia.15 Digitalis foi descontinuado em 80% dos pacientes, pois as diretrizes atualizadas de insuficiência cardíaca recomendam a digoxina em algumas situações.20 , 21 Houve grande dificuldade econômica para as prescrições farmacológicas mais atuais, como anticoagulantes orais diretos (DOACs), sacubitril-valsartan e antidiabéticos mais recentes, dado o alto custo dos medicamentos para o perfil econômico da população e a indisponibilidade de programas governamentais de distribuição de medicamentos. Apenas um paciente estava em uso do composto sacubitril-valsartana antes da teleconsulta.

A baixa taxa de exames solicitados também se alinhou com a baixa complexidade das patologias. Quando necessário, foram priorizados exames mais simples e acessíveis, como eletrocardiograma e radiografia de tórax. Outra questão crítica foi a indisponibilidade local de alguns exames, como o ecocardiograma, obrigando a realização de ajustes e adaptações na prescrição médica. A análise desses achados sugere que a teleconsulta tem um excelente potencial para administrar os procedimentos mais atualizados e adequados para pacientes em locais remotos.6 , 11 , 12

Este estudo apresenta algumas limitações: houve apenas observação da prática, sem randomização ou comparação com pacientes atendidos presencialmente.

Conclusão

A teleconsulta cardiológica sob demanda oferece a oportunidade de otimizar o tratamento médico de diversas cardiopatias. A maioria dos pacientes foi encaminhada com diagnósticos sindrômicos sem exames complementares prévios. A avaliação especializada solicitada geralmente estava disponível localmente e com baixo custo, mas impedia a alta precoce. O treinamento local presumivelmente poderia otimizar o fluxo de encaminhamento.

Vinculação acadêmica

Não há vinculação deste estudo a programas de pós-graduação.

Aprovação ética e consentimento informado

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética do Hospital Israelita Albert Einstein sob o número de protocolo CAAE: 5804.1222.1.0000.0071. Todos os procedimentos envolvidos nesse estudo estão de acordo com a Declaração de Helsinki de 1975, atualizada em 2013.

Fontes de financiamento: O presente estudo não teve fontes de financiamento externas.

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Clinical Features and Management of Patients Assessed by Cardiology Teleconsultation in the Brazilian Region with the Highest Number of Isolated Cities

Tarso Augusto Duenhas Accorsi 1, Renato Paladino Nemoto 1, Jairo Tavares Nunes 1, Antônio Fernando Barros de Azevedo Filho 1, Flavio Tocci Moreira 1, Karen Francine Kohler 1, Karine de Amicis Lima 1, Bruna Dayanne Reges Amaral 1, Renata Albaladejo Morbeck 1, Carlos Henrique Sartorato Pedrotti 1

Abstract

Background

Cardiovascular diseases are the leading cause of adult mortality. Geographically remote and low-income Brazilian regions lack specialized consultations. The telemedicine management of this population by cardiologists is not fully known.

Objectives

To analyze cardiology teleconsultation in the Brazilian region with the highest number of isolated cities.

Methods

From February 2020 to October 2021, patients from the North Region of Brazil evaluated by local general practitioners were referred for cardiological evaluation by telemedicine. Referral reasons, demographics, clinical history, physical examinations, tests, medications, and prescriptions pre- and post-telemedicine were analyzed (p<0.05 was considered statistically significant).

Results

We analyzed 653 patients. The attendance rate was 85.7% (53.1% female, mean age: 54.2±6.5 years). The main reasons for referral were cardiovascular symptoms (58.1%) and risk factors among asymptomatic patients (13.3%). Only 12.6% had a diagnosed disease. Most patients had regular physical examinations and electrocardiograms. Few had recent complementary tests. The prescription of angiotensin receptor blockers (ARBs), calcium channel blockers and statins was significantly increased, while that of digoxin, noncardiac beta-blockers and acetylsalicylic acid (ASA) was decreased at the first teleconsultation. Most of the tests requested were of low complexity and cost: electrocardiogram (28.2%), chest X-ray (14%), echocardiogram (64.5%) and blood tests (71.8%). For 2.1% of patients, interventions were indicated, and 8% were discharged after the first consultation.

Conclusion

On-demand cardiology teleconsultation contributes to heart disease treatment optimization. Most patients were referred with syndromic diagnoses without previous complementary tests. The specialist workup requested was usually available locally and at a low cost but precluded early discharge. Local training could optimize the referral.

Keywords: Telecardiology, Remote Consultation, Telemedicine, Referral and Consultation, Suburban Population

Introduction

Telemedicine (TM) has become an essential resource for the health system as it provides cost-effective care via prompt actions.1 Although multiple kinds of virtual patient assessments have been in practice since the 1970s, TM evaluation has increased in the current decade.2 Progressive scientific evidence supports the use of TM in diverse scenarios.3 Some populations, especially in remote areas with geographical barriers, chronically lack face-to-face healthcare and financing.4 TM has an incredible potential for delivering essential healthcare to these populations, whether by a generalist or specialist.5 , 6

According to the last Brazilian Institute of Geography and Statistics Census, the North Region of Brazil has over 12,500,000 inhabitants, and at least 20% live in remote areas7 that are distant from urban centers or far away from inhabited places and have difficult access. This region is the largest in Brazil, characterized by the Amazon forest (dense, with impaired access to healthcare facilities), with the country’s lowest population density and Human Development Index ( Figure 1 ).8 Additionally, the North Region has the lowest medical provider density in the country, with an average of one doctor per thousand inhabitants, but reaching 0.2 per thousand inhabitants in remote areas.9 In a recent analysis of health statistics in Brazil, cardiovascular diseases were the leading cause of death in this region, with a worse prognosis than in other areas with higher levels of development.10 In February 2020, the Brazilian government launched a program for teleconsultation in cardiology in this region, aiming to reduce the burden of cardiovascular diseases.11

Figure 1. – Map of Brazil representing socioeconomic vulnerability index values. States marked with a red pin correspond to the North Region of the country. Adapted from Rocha et al.8.

Figure 1

Evidence supports the establishment of TM as a strategy for high levels of satisfaction related to assessments, as well as a reduction in specialist times and morbimortality in some cardiovascular disease groups (mainly heart failure patients).12 , 13 However, the main reasons for referral to specialists, clinical features, current treatment statuses, and management by TM are not entirely known. These data may presumably realign and adapt the current project and guide other remote initiatives in focusing on a cost-effective strategy.

The objective of this study was to analyze the attendance data of cardiology teleconsultation management of patients in the Brazilian region with the most isolated cities.

Materials and methods

This was a retrospective descriptive study involving a single TM center (Hospital Israelita Albert Einstein) that was a reference for 104 in situ centers in the North Region of Brazil related to the specialized medical assistance program of the health system development program (PROADI, in the Portuguese acronym) through TM by the Ministry of Health, Brazil ( Central Illustration ).

Central Illustration. : Clinical Features and Management of Patients Assessed by Cardiology Teleconsultation in the Brazilian Region with the Highest Number of Isolated Cities.

Central Illustration

Benefits of cardiology teleconsultation in isolated cities. The map illustrates the health facilities in Brazil’s North Region that are members of the program of specialized medical assistance through telemedicine. Green markings indicate the locations of participating facilities, while gray markings indicate the locations for future equipment installation. Stars indicate extra locations not initially foreseen by the Ministry of Health. Map from Google Maps, Portuguese language. DM: diabetes mellitus; PROADI: specialized medical assistance program of the health system development program through TM by the Ministry of Health.

Patients were previously assessed by community general practitioners who requested specialist cardiology consultation. According to local health system booking procedures, patients were referred for TM consultation as an alternative to the specialist encounter. All remote assessments of this program included the patient alongside the health facility general practitioner with the cardiologist from the TM center in real time. All facilities were equipped with modern devices allowing a fast internet connection with audio and video. Teleconsultation was performed after confirming perfect audio and image function ( Figure 2 ). On-site physicians who worked in the health center were not necessarily the physicians who referred the patient for specialized evaluation. They had access to the patient’s medical records and the reason for the referral, and jointly participated in the teleconsultation. Patients had consultations lasting 30 minutes, and all eighteen telemedicine cardiologists worked for four consecutive hours and were previously trained according to institutional TM protocols. At the end of each evaluation, the on-site general practitioner received the online report from the specialist and continued evaluation with reinforcement of explanations, test scheduling, and prescriptions, in addition to filling out the local medical record.

Figure 2. – External image of a health facility. On-demand cardiology consultation.

Figure 2

We included consecutive patients evaluated from February 2020 (the beginning of the program) to October 2021. Care was substantially interrupted throughout this operation due to the COVID-19 pandemic, and there has been a progressive resumption since March 2021. From TM medical records, the following parameters were analyzed: reason for referral, demographic data, clinical history, and physical examination, as well as pre- and post-TM evaluation regarding tests, medications, diagnoses, and prescriptions.

Statistical analysis

The main statistics were predominantly descriptive. The Kolmogorov‒Smirnov test was used to confirm data normality. Continuous variables were described as mean and standard deviation (SD), and categorical variables were described as absolute numbers and percentages. The only comparison was conducted between prescriptions using McNemar’s test. Values with p<0.05 were considered statistically significant, and we used IBM-SPSS for Windows version 22.0 software for statistical calculations.

Results

A total of 653 patients scheduled from 02/17/2020 to 10/04/2021 were evaluated, with a consultation attendance rate of 85.7%. The majority were female, with a mean age of 54.2 years. There was strong evidence of low-income patients characterized by educational level; the main reason for referral was the presence of at least one of the following symptoms: dyspnea, chest pain, syncope, or palpitations. Most of the patients had not had any major cardiovascular events, despite the presence of risk factors for cardiovascular diseases among most of the evaluated patients; 60.1% had hypertension, followed by dyslipidemia, smoking and diabetes mellitus. Few reported regular physical activity ( Table 1 ). Only some cardiovascular-related symptoms were explored during teleconsultation, and a local physician guided by a remote cardiologist performed a physical examination. The most commonly reported symptom was chest pain, but only 26.1% of the patients were highly suspected to have ischemic heart disease. Dyspnea was reported in 1/3 of the patients, and a few of them were in NYHA functional class III or IV. Surprisingly, palpitations were noticed in 151 (26.8%) patients, while syncope was uncommonly observed. Heart rate and blood pressure were measured for all patients before teleconsultation and had a mean and standard deviation of 76.9±13.8, 136.4±67.3 (systolic), and 82.1±13.9 (diastolic), respectively. Many patients had a normal physical examination with few cases of murmur or signs of heart failure detected ( Table 2 ).

Table 1. – Attendance and baseline demographic and clinical features.

Variable Description
  mean ± SD
Age (Years) 54.2±16.5
  n (%)
Positive attendance 563 (85.7)
Gender
Male 264 (46.9)
Female 299 (53.1)
Educational level
No formal education 181 (34.5)
Elementary incomplete 56 (10.7)
Elementary complete 68 (13)
Incomplete high school 53 (10.1)
Complete high school 135 (25.8)
Incomplete university 15 (2.9)
Complete university 16 (3.1)
Reason for referral
At least one: dyspnea/chest pain/syncope/edema/palpitation 327 (58.1)
Risk factors for cardiovascular disease 75 (13.3)
Diagnosed arrhythmia 31 (5.5)
Diagnosed coronary artery disease 18 (3.2)
Diagnosed heart failure 13 (2.3)
Diagnosed valvular heart disease 9 (1.6)
Others 90 (16)
Baseline medical history
Previous cardiovascular hospitalization 52 (9.2)
Coronary angioplasty 11 (2)
Coronary artery bypass graft 11 (2)
Stroke 28 (5)
Peripheral obstructive artery disease 7 (1.2)
Hypertension 338 (60.1)
Altered fasting blood glucose 28 (5)
Diabetes mellitus 87 (15.5)
Dyslipidemia 164 (29.1)
Regular physical activity 53 (9.4)
Smoking 103 (18.3)
Non-cardiovascular chronic condition
Respiratory diseases 18 (3.2)
Digestive system diseases 24 (4.3)
Genitourinary system diseases 21 (3.7)
Rheumatologic diseases 20 (3.6)
Psychiatric/neurological diseases 41 (7.3)
Endocrinological diseases 35 (6.2)
Hematologic/immune diseases 4 (0.7)
Alcoholism 24 (4.3)

Table 2. – Consultation clinical features and recent complementary tests.

Variable Description
  n (%)
Dyspnea 167 (29.7)
NYHA functional class
I/II 142 (95.5)
III/IV 25 (4.5)
Chest Pain 277 (49.2)
Types of chest pain  
Type D - definitely not angina 96 (34.6)
Type C - probably not angina 109 (39.3)
Type B - probably angina 44 (15.9)
Type A - definitely angina 28 (10.2)
Canadian Cardiovascular Society angina grade in type A/B
I/II 55 (76.6)
III/IV 17 (23.4)
Palpitations 151 (26.8)
Syncope 14 (2.5)
Murmur 26 (4.6)
Jugular stasis 8 (1.4)
Peripheral edema 32 (5.7)
Rales in lung auscultation 13 (2.3)
Electrocardiogram
normal, n (%) 252 (59.3)
atrial fibrillation / flutter, n (%) 11 (2.6)
any degree of sick sinus syndrome or atrioventricular block 18 (4.2)
any chamber overload 69 (16.2)
unspecific altered repolarization 38 (8.9)
Others 37 (8.7)
Chest radiography suggested of any heart disease 21 (45.7) / n=46
Echocardiogram (n=82)
Normal 39 (47.6)
left ventricular ejection fraction < 50% 7 (8.5)
left ventricular hypertrophy 18 (22)
severe valvular heart disease 12 (14.6)
segmental left ventricular hypokinesis 5 (6.1)
Others 1 (1.2)
Abnormal Holter (premature ventricular beats, tachycardia, bradycardia) (n=30) 16 (53.3)
Ischemic treadmill test (n=20) 0 (0)
Cardiac coronary catheterization (n=20)
Normal 7 (35)
non-significant coronary artery disease 5 (25)
obstructive coronary artery disease 8 (40)
  média+DP
Heart rate, mean ± SD 76.9 ± 13.8
Systolic blood pressure, mean ± SD 136.4 ± 67.3
Diastolic blood pressure, mean ± SD 82.1 ± 13.9

Electrocardiograms were performed for all patients, and most were normal. Other tests, such as echocardiograms and exercise tests, were performed for fewer patients, also with primarily normal results. The cases were managed by comparing previous baseline prescriptions with teleconsultation prescriptions and describing the complementary tests required ( Table 3 ). All medicine prescriptions were changed to some degree, but only ARBs, digoxin, non-HF betablockers, ASA, calcium channel blockers, and statins were statistically significant. Most of the newly requested tests were of low complexity and low cost, such as electrocardiogram, chest radiography, echocardiogram and blood tests. The treadmill test was the most common noninvasive assessment of ischemic heart disease, requested in 31.8% of the cases. More complex tests, such as computed tomography (CT) scans and cardiac catheterization, were uncommon. Very few patients were indicated for surgical or transcatheter intervention.

Table 3. – Medicine management and new tests requested.

Medication (n=563) Previous n (%) After teleconsultation n (%) p*
ACEi 31 (5.5) 47 (8.3) 0.596
ARB II 94 (16.7) 123 (21.8) <0.001
HF Beta blocker 26 (4.6) 39 (6.9) 0.461
Spironolactone 19 (3.4) 13 (2.3) 0.201
Sacubritril – valsartan 0 (0) 1 (0.2) >0.999
Diuretic 62 (11) 78 (13.9) 0.579
Digoxin 8 (1.4) 2 (0.4) 0.008
Non-HF Beta blocker 50 (8.9) 26 (4.6) 0.024
ASA 75 (13.3) 57 (10.1) <0.001
P2Y12 inhibitors 5 (0.9) 7 (1.2) >0.999
Warfarin 2 (0.4) 2 (0.4) 0.289
DOAC 1 (0.2) 5 (0.9) 0.375
Calcium channel blocker 33 (5.9) 36 (6.4) 0.007
Oral antidiabetic 2 (0,4) 1 (0,2) 0.289
Insulin 5 (0,9) 3 (0,5) >0.999
New oral antidiabetics 2 (0,4) 1 (0,2) 0.289
Statin 44 (7,8) 80 (14,2) <0.001
Fibrate 5 (0,9) 1 (0,2) 0.727
Nitrate 7 (1,2) 4 (0,7 0.804
Requested tests, intervention indication and discharge (n=563) n (%)
Electrocardiogram 159 (28.2)
Chest radiography 83 (14.7)
Echocardiogram 363 (64.5)
Blood tests 404 (71.8)
Treadmill test/myocardial scintigraphy 179 (31.8)
ABPM 86 (15.3)
Any ultrasound 18 (3.2)
Any CT scan 36 (6.4)
Cardiac catheterization 31 (5.5)
Intervention 12 (2.1)
Discharge 45 (8)

ACEi: angiotensin-converting enzyme inhibitors; ARB: angiotensin receptor blockers; ASA: acetylsalicylic acid; HF: heart failure; DOAC: direct-acting oral anticoagulants; ABPM: Ambulatory blood pressure monitoring; CT: computed tomography * McNemar test.

Discussion

This is the first study to analyze the characteristics and management of on-demand TM cardiology consultations for low-income populations in remote areas of Brazil. Considering the new implementation of this program and the difficulties related to the geographic and demographic characteristics of the North Region of Brazil, which has isolated areas and a low proportion of physicians per inhabitant, the positive attendance rate of 85.7% was satisfactory. For example, local physicians reported that many patients had difficulties accessing the consultation location, with boat journeys taking more than one day. Additionally, many patients needed companions to help them understand basic explanations about the treatment.

We noticed some differences in the most current statistics when analyzing the data collection results. For example, the number of cardiological teleconsultations for female patients was slightly higher than that for males (53.1 vs. 46.9%), differing from the results of the 2020 Brazilian cardiovascular statistics article, in which the global prevalence of cardiovascular diseases (CVDs) in the North Region was higher among males (54%).10

The main reasons for referral were chest pain, dyspnea, palpitations, and syncope. In general, the complexity profiles of the evaluated patients were considered low. Clinical features of low probability of angina and coronary artery disease were observed (resulting in the low number of diagnostic and therapeutic interventions indicated). Most patients with dyspnea were classified as having nonlimiting dyspnea, with multifactorial characteristics. A low rate of previous infarctions, coronary artery bypass grafting, and left ventricular dysfunction was also observed. The incidence of syncope was low, and the most significant change identified on the 24-hour Holter test were isolated extrasystoles.

In clinical evaluation, the main risk factors identified for cardiovascular diseases were obesity, sedentary lifestyle, hypertension, and diabetes mellitus, consistent with the worldwide increase in the prevalence of metabolic syndrome, as demonstrated by Rissardo et al., who studied the cardiovascular risk profiles of men and women in Santa Maria, a small city in the southern region of the country, from 2012 to 2016.14 Interestingly, the prevalence of smokers was low, perhaps due to the effectiveness of campaigns raising awareness against smoking.

Mean systolic and diastolic blood pressure levels showed a tendency toward prehypertension. However, potential measurement biases and white coat hypertension must be considered.15

We also observed that cardiology teleconsultations were an excellent opportunity for medication adjustments. When we compared the REACT 2013 study data, which evaluated the drug prescription profiles according to the evidence, we noticed that the rate of angiotensin-converting enzyme (ACE) inhibitors prescribed (53%) was similar to that in our findings.16 Before teleconsultations, 13% of the patients were using antiplatelet drugs (ASA only), a number much lower than that evaluated in the REACT study (78%); however, after teleconsultations, the number decreased even more significantly.16 The vast majority of ASA users did so unnecessarily since the rate of previous cardiovascular events was low. Perhaps the most significant change was in statin prescriptions, which practically doubled after teleconsultations. There was little use of statins (7.8%) before the teleconsultations, even among patients with indications for primary prevention.

This finding is consistent with the expected risk profile for a population with uncontrolled risk factors. Nascimento et al.17 analyzed the prevalence of statin use in Brazil; of the 6,511 patients interviewed, only 9.4% used statins, with simvastatin (90.3%), atorvastatin (4.7%) and rosuvastatin (1.9%) being the most commonly used. Poor adherence was described by 6.5% of patients.17 - 19 Despite the increase in the number of patients using statins after teleconsultations, the number was still lower than that observed in REACT, perhaps due to the higher number of patients with increased cardiovascular risk.16 The use of betablockers outside the context of heart failure or coronary insufficiency was discontinued for 65.7% of patients, mainly for the treatment of isolated arterial hypertension (no other comorbidities). Betablockers represent second-line therapy in treating this pathology.15 Digitalis was discontinued for 80% of patients, as the updated heart failure guidelines recommend digoxin in some situations.20 , 21 There was great economic difficulty for the most current pharmacological prescriptions, such as direct-acting oral anticoagulants (DOACs)s, sacubitril-valsartan, and more recent antidiabetic drugs, given the high cost of medications for the population’s economic profile and the unavailability of government drug-dispensing programs. Only one patient was using the sacubitril-valsartan compound before the teleconsultation.

The low rate of tests requested also aligned with the low complexity of the pathologies. When necessary, priority was given to more straightforward and accessible tests, such as electrocardiograms and chest radiography. Another critical issue was the local unavailability of some tests, such as echocardiograms, which forced adjustments and adaptations to the medical prescription. The analysis of these findings suggests that teleconsultation has excellent potential for managing the most up-to-date and appropriate procedures for patients in remote locations.6 , 11 , 12

This study has some limitations: there was only observation of practice, without randomization or comparison with patients seen face-to-face.

Conclusion

On-demand cardiology teleconsultation provides an opportunity to optimize the medical treatment of several heart diseases. Most patients were referred with syndromic diagnoses without previous complementary tests. The specialist workup requested was usually locally available and at low cost but precluded early discharge. Local training could presumably optimize the referral flow.

Study association

This study is not associated with any thesis or dissertation work.

Ethics approval and consent to participate

This study was approved by the Ethics Committee of the Hospital Israelita Albert Einstein under the protocol number CAAE: 5804.1222.1.0000.0071. All the procedures in this study were in accordance with the 1975 Helsinki Declaration, updated in 2013.

Sources of funding: There were no external funding sources for this study.


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