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editorial
. 2025 Jun 18;122(6):e20250284. [Article in Portuguese] doi: 10.36660/abc.20250284
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Hospitalizações e Mortalidade Hospitalar por Insuficiência Cardíaca no Brasil: Um Panorama Atualizado

Adriana Lopes Latado 1,2,Correspondência:
PMCID: PMC12212390  PMID: 40638434

A insuficiência cardíaca (IC) representa uma carga crescente de doença e custos de saúde, tanto globalmente quanto no Brasil; é a via final comum de várias doenças cardiovasculares, incluindo condições específicas e bem definidas, como a doença isquêmica do coração. Dados de prevalência e incidência mostram aumentos progressivos ao longo das últimas décadas, com a prevalência atual de IC estimada em 2,5% entre adultos nos Estados Unidos, e projetada para atingir 3,0% até 2030.1,2 As internações hospitalares relacionadas à IC também estão aumentando nos Estados Unidos. Enquanto isso, a mortalidade hospitalar ajustada diminuiu, de 6,8% em 2002 para 4,9% em 2016, um padrão consistente entre faixas etárias, sexo e categorias raciais/étnicas.1

No Brasil, a prevalência autorreferida de IC é estimada em 1,1% entre adultos acima de 18 anos e 3,3% em indivíduos acima de 60 anos.2 Em relação às hospitalizações e à mortalidade hospitalar, estudos de tendência temporal indicam uma redução no número de internações relacionadas à IC, com a mortalidade hospitalar variando de 9% a 17%, também apresentando uma tendência de queda, especialmente na última década.1,3,4 No entanto, os dados nacionais ainda são escassos, com limitações na representatividade populacional e necessidade de atualizações regulares.

O artigo de Girardi et al.,5 publicado nesta edição, examina as tendências temporais das internações relacionadas à IC em adultos com idade ≥40 anos no Brasil entre 2000 e 2021, utilizando dados do DATASUS e estratificando por idade e sexo. O estudo também analisa as tendências de mortalidade hospitalar ao longo desse período de 22 anos. Os autores relatam uma queda constante nas internações por IC tanto entre homens quanto mulheres em todas as faixas etárias. A redução percentual média anual nas taxas de internação entre os homens variou de 6,7% (40–49 anos) a 8,1% (≥80 anos). Entre as mulheres, a queda variou de 7,5% (70–79 anos) a 8,3% (50–59 anos). Em contraste, as taxas de mortalidade hospitalar apresentaram uma tendência de aumento em todas as faixas etárias e em ambos os sexos de 2000 a 2021. Entre os homens, o aumento percentual médio anual variou de 1,8% (40–49 anos) a 3,6% (≥80 anos). Entre as mulheres, o crescimento variou de 3,1% (≥80 anos) a 3,5% (60–79 anos). Algumas variações adicionais foram observadas em análises específicas por subperíodo e idade, mas sem impacto significativo nos achados gerais.5

Os achados relatados no artigo5 refletem o cenário epidemiológico global da IC? Dados dos Estados Unidos mostram que as internações hospitalares relacionadas à IC aumentaram de 1,06 milhão em 2008 para 1,27 milhão em 2018, com taxas mais altas entre grupos raciais e étnicos sub-representados em estudos clínicos, como as populações negra e hispânica. As internações aumentaram em todos os subtipos de IC com base na fração de ejeção do ventrículo esquerdo (FEVE), sendo que homens foram mais frequentemente internados por IC com fração de ejeção reduzida (ICFEr) e mulheres por IC com fração de ejeção preservada (ICFEp). Entre 2002 e 2016, a mortalidade hospitalar diminuiu de 6,8% para 4,9%, uma tendência consistente entre faixa etária, sexo e raça.1

Os dados sobre IC na Europa variam significativamente entre os países, dependendo dos níveis de renda, do acesso à saúde e dos fenótipos de IC com base na FEVE. No Reino Unido, um estudo retrospectivo populacional encontrou um aumento nas internações hospitalares por IC entre mulheres de 1998 a 2017, enquanto as taxas permaneceram estáveis entre os homens. Indivíduos de origens socioeconômicas mais baixas apresentaram uma tendência de aumento nas internações, um padrão não observado entre as populações mais desfavorecidas.6 Um estudo italiano relatou uma redução nas hospitalizações por IC ao longo de um período de 38 anos (1977–2014) entre indivíduos com mais de 65 anos,7 enquanto na Suécia, uma análise baseada na idade encontrou um aumento nas internações por IC em adultos mais jovens, mas não em grupos etários mais velhos (55–84 anos). Além disso, a mortalidade hospitalar diminuiu em todas as faixas etárias de 1987 a 2001, mas estabilizou-se posteriormente.8

Fica evidente que inconsistências na epidemiologia e no prognóstico da IC podem existir entre países e até mesmo dentro de regiões de grandes nações, independentemente da etiologia ou dos fenótipos da síndrome. Essas diferenças são multifatoriais.9 No entanto, está bem estabelecido que as terapias modificadoras da doença para IC – especialmente para ICFEr – impactaram significativamente a mortalidade geral e reduziram as hospitalizações nas últimas três décadas.10,11 Se esse for o caso, as hospitalizações e reinternações atuais provavelmente estão ocorrendo em pacientes clinicamente mais graves, nos quais desfechos adversos, como morte hospitalar, são mais frequentes.

A falta de uma melhoria uniforme no prognóstico da IC é complexa e vai além da eficácia da terapia farmacológica orientada por diretrizes. Fatores como acesso à saúde, disponibilidade de medicamentos, renda regional ou nacional e o status socioeconômico e educacional da população influenciam significativamente os desfechos reais de estratégias que se mostraram eficazes em ensaios clínicos randomizados.

O estudo5 traz uma contribuição valiosa e oportuna para a compreensão do prognóstico da IC no Brasil. Embora os dados epidemiológicos baseados no DATASUS sejam limitados à população atendida pelo Sistema Único de Saúde (SUS), é importante destacar que aproximadamente 84% dos brasileiros dependem exclusivamente do SUS – um percentual ainda maior nas regiões norte e nordeste.12 Estudos ecológicos sobre IC são urgentemente necessários para expandir o conhecimento sobre sua epidemiologia e seu prognóstico. Esses estudos devem abordar as diversas realidades dessa síndrome complexa e fornecer dados que reflitam a diversidade regional, étnica, cultural e socioeconômica do Brasil.

Footnotes

Minieditorial referente ao artigo: Tendência Temporal das Internações Hospitalares por Insuficiência Cardíaca no Brasil

Referências

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Arq Bras Cardiol. 2025 Jun 18;122(6):e20250284. [Article in English] doi: 10.36660/abc.20250284i

Hospitalizations and In-Hospital Mortality from Heart Failure in Brazil: An Updated Overview

Adriana Lopes Latado 1,2,Mailing Address:

Heart failure (HF) accounts for a growing burden of disease and healthcare costs both globally and in Brazil. It represents the final common pathway of several cardiovascular diseases, including specific and well-defined conditions such as ischemic heart disease. Prevalence and incidence data have shown progressive increases over recent decades, with the current HF prevalence estimated at 2.5% among U.S. adults, and projected to reach 3.0% by 2030.1,2 HF-related hospital admissions are also on the rise in the United States. Meanwhile, adjusted in-hospital mortality has declined, from 6.8% in 2002 to 4.9% in 2016, consistent across age groups, sex, and racial/ethnic categories.1

In Brazil, the self-reported prevalence of HF is estimated at 1.1% among adults over 18 years old and 3.3% in individuals over 60.2 Regarding hospitalizations and in-hospital mortality, temporal trend studies indicate a decline in the number of HF-related admissions, with hospital mortality ranging from 9% to 17%, also showing a decreasing trend, especially over the past decade.1,3,4 However, national data remain scarce, with limitations in population representativeness and a need for regular updates.

The article by Girardi et al.,5 published in this issue, examines the temporal trends of HF-related hospitalizations in adults aged ≥40 years in Brazil between 2000 and 2021, using data from DATASUS and stratifying by age and sex. It also analyzes in-hospital mortality trends over this 22-year period. The authors report a steady decline in hospitalizations for HF among both men and women across all age groups. The average annual percentage decrease in hospitalization rates among men ranged from 6.7% (ages 40–49) to 8.1% (ages ≥80). Among women, the decline ranged from 7.5% (ages 70–79) to 8.3% (ages 50–59). In contrast, in-hospital mortality rates showed an upward trend across all age groups and in both sexes from 2000 to 2021. Among men, the average annual increase ranged from 1.8% (ages 40–49) to 3.6% (ages ≥80). Among women, the increase ranged from 3.1% (ages ≥80) to 3.5% (ages 60–79). Some additional variations were observed in sub-period and age-specific analyses, but without major impact on the overall findings.5

Do the findings reported in article5 reflect the global epidemiological landscape of HF? U.S. data show that HF-related hospitalizations increased from 1.06 million in 2008 to 1.27 million in 2018, with higher rates among racially and ethnically underrepresented groups in clinical studies, such as Black and Hispanic populations. Hospitalizations increased across all HF subtypes based on left ventricular ejection fraction (LVEF), with men more frequently admitted for HF with reduced ejection fraction (HFrEF), and women for HF with preserved ejection fraction (HFpEF). Between 2002 and 2016, in-hospital mortality declined from 6.8% to 4.9%, a trend consistent across age, sex, and race.1

In Europe, data vary significantly between countries depending on income levels, access to healthcare, and HF phenotypes based on LVEF. In the United Kingdom, a population-based retrospective study found increasing HF hospitalizations among women from 1998 to 2017, while rates remained stable in men. Individuals from lower socioeconomic backgrounds showed a trend toward increased admissions, a pattern not observed among the most disadvantaged populations.6 An Italian study reported a decline in HF hospitalizations over a 38-year period (1977–2014) among individuals over 65,7 whereas in Sweden, an age-based analysis found increased HF admissions in younger adults, but not in older age groups (55–84 years). Furthermore, hospital mortality declined across all age groups from 1987 to 2001, but plateaued thereafter.8

It is clear that inconsistencies in HF epidemiology and prognosis can exist across countries and even within regions of large nations, regardless of the syndrome's etiology or phenotypes. These differences are multifactorial.9 However, it is well established that disease-modifying therapies for HF – especially HFrEF - have significantly impacted overall mortality and reduced hospitalizations over the past three decades.10,11 If this is the case, current hospitalizations and readmissions are likely occurring in clinically more severe patients, in whom adverse outcomes, such as in-hospital death, are more frequent.

The lack of a uniform improvement in HF prognosis is complex and extends beyond the efficacy of guideline-directed pharmacologic therapy. Factors such as healthcare access, medication availability, regional or national income, and the population's socio-economic and educational status significantly influence the real-world outcomes of strategies that have proven effective in randomized clinical trials.

The study5 makes a valuable and timely contribution to understanding HF prognosis in Brazil. While DATASUS-based epidemiological data are limited to the population served by the Brazilian Unified Health System (SUS), it is important to note that approximately 84% of Brazilians currently rely exclusively on SUS – a figure even higher in the north and northeast regions.12 More ecological studies on HF are urgently needed to expand knowledge about its epidemiology and prognosis. These studies should address the diverse realities of this complex syndrome and provide data reflective of Brazil's regional, ethnic, cultural, and socioeconomic diversity.

Footnotes

Short Editorial related to the article: Temporal Trends of Hospital Admissions Due to Heart Failure in Brazil


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