Prezada Editora,
Desde que Zhe Xu relatou caso confirmado de COVID‐19 em um homem de 50 anos de idade, e que apresentava Síndrome de Desconforto Respiratório Agudo (SDRA),1 outros pesquisadores como Heymann et al. destacaram a ocorrência de SDRA nesses pacientes.2 Diversos tratamentos e intervenções foram sugeridos para a síndrome e alguns foram aprovados. Sugerimos a adoção do decúbito ventral. Alguns benefícios foram associados ao decúbito ventral incluindo: melhor relação ventilação‐perfusão, recrutamento de regiões dependentes do pulmão, otimização das propriedades mecânicas da parede torácica e melhor drenagem de secreções traqueobrônquicas.3 Além da existência desses benefícios associados, não houve resultados consistentes em relação aos efeitos da posição ventral nos casos de SDRA. Beitler et al. fizeram uma meta‐análise de sete estudos clínicos e relataram que o decúbito ventral reduziu de forma significativa a mortalidade por SDRA em pacientes com volume corrente baixo.4
Usamos o decúbito ventral em 10 pacientes que apresentavam COVID‐19, selecionados aleatoriamente (70% homens e 30% mulheres), hospitalizados em enfermaria não de terapia intensiva, específica para pacientes com COVID‐19. Nenhum paciente foi submetido a intubação endotraqueal. Nenhum deles foi colocado em ventilação mecânica. A idade média dos pacientes foi 41 anos. Trinta por cento dos pacientes tinham histórico de doença de base (hipertensão ou diabetes). Observamos SPO2 média de 85,6% e 95,9% antes e após o decúbito ventral, respectivamente, e a manutenção da posição apresentou uma alteração marcante na SPO2. A queixa de dispneia também diminuiu para 40% dos casos e todos os pacientes receberam alta hospitalar. O tempo médio de hospitalização dos pacientes foi 4,8 dias, sem ocorrência de óbitos (tabela 1 ). Consentimento informado por escrito foi obtido de todos os participantes.
Tabela 1.
Informações dos pacientes hospitalizados com COVID‐19
| Caso |
Sexo e Idade |
Tabagista? | Doença de Base? | Intubação endotraqueal | Dispneia antes do decúbito ventral | Frequência respiratória antes do decúbito ventral | SPO2antes do decúbito ventral | Uso dos músculos respiratórios acessórios antes do decúbito ventral |
Dispneia após Decúbito ventral |
Frequência respiratória após o decúbito ventral | SPO2após decúbito ventral | Uso dos músculos respiratórios acessórios após decúbito ventral |
Duração da hospitalização (dias) |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | M/ 31 |
Não | Não | Não | Sim | 22 | 85 | Não | Não | 22 | 97 | Não | 3 |
| 2 | M/ 30 |
Não | Não | Não | Sim | 22 | 86 | Não | Sim | 22 | 99 | Não | 4 |
| 3 | M/ 41 |
Não | H | Não | Sim | 21 | 85 | Não | Não | 22 | 93 | Sim | 4 |
| 4 | M/ 34 |
Não | D | Não | Sim | 21 | 86 | Sim | Sim | 22 | 97 | Não | 4 |
| 5 | M/ 34 |
Não | Não | Não | Sim | 19 | 87 | Não | Não | 20 | 95 | Não | 3 |
| 6 | M/ 53 |
Não | Não | Não | Sim | 18 | 85 | Sim | Sim | 24 | 98 | Não | 5 |
| 7 | M/ 56 |
Não | Não | Não | Sim | 22 | 85 | Não | Não | 21 | 94 | Não | 6 |
| 8 | F/ 38 |
Não | Não | Não | Sim | 20 | 86 | Sim | Sim | 24 | 93 | Não | 7 |
| 9 | F/ 45 |
Não | Não | Não | Sim | 18 | 86 | Não | Não | 21 | 98 | Não | 7 |
| 10 | F/ 48 |
Não | H | Não | Sim | 27 | 85 | Não | Não | 26 | 95 | Sim | 5 |
M, Masculino; F, Feminino; H, Hipertensão; D, Diabetes.
Embora nossos resultados não tivessem apresentado informações com relevância estatística, observamos melhora clínica no status respiratório e SPO2 dos pacientes ao assumirem o decúbito ventral. Portanto, parece que a posição pode ajudar os pacientes com COVID‐19 que apresentam forma leve da doença, além de reduzir a mortalidade. Entretanto, são necessários mais estudos válidos e precisos, que avaliem essa intervenção protetora.
Contribuição dos autores
Todos os autores cumpriram os critérios de contribuição na autoria com base nas recomendações do International Committee of Medical Journal Editors.
Conflitos de interesse
Os autores declaram não haver conflitos de interesse.
Agradecimentos
Gostaríamos de agradecer todos da equipe da enfermaria para pacientes infectados com COVID‐19 no Forghani Hospital pela cooperação para realização deste projeto.
Referências
- 1.Xu Z., Shi L., Wang Y. Pathological findings of COVID‐19 associated with acute respiratory distress syndrome. The Lancet Respir Med. 2020;8:420–422. doi: 10.1016/S2213-2600(20)30076-X. [DOI] [PMC free article] [PubMed] [Google Scholar]
- 2.Heymann D.L., Shindo N. COVID‐19: what is next for public health? The Lancet. 2020;395(10224.) doi: 10.1016/S0140‐6736(20)30374‐3. [DOI] [PMC free article] [PubMed] [Google Scholar]
- 3.Guérin C. Prone position. Acute Respiratory Distress Syndrome. Springer International Publishing; 2017:73–83. [Google Scholar]
- 4.Beitler J.R., Shaefi S., Montesi S.B. Prone positioning reduces mortality from acute respiratory distress syndrome in the low tidal volume era: a meta‐analysis. Intensive Care Med. 2014;40:332–341. doi: 10.1007/s00134-013-3194-3. [DOI] [PMC free article] [PubMed] [Google Scholar]
