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. 2024 Mar 11;40(3):e00000624. [Article in Portuguese] doi: 10.1590/0102-311XPT000624

Trabalhadores(as) em plataformas digitais: precarização e sobrevivência

Workers on digital platforms: precariousness and survival

Trabajadores(as) en plataformas digitales: precarización y supervivencia

Reviewed by: Sergio Roberto de Lucca 1
TRABALHO POR PLATAFORMAS DIGITAIS: DO APROFUNDAMENTO DA PRECARIZAÇÃO À BUSCA POR ALTERNATIVAS DEMOCRÁTICAS.R Grohman, J Salvagni. .São Paulo. :Serviço Social do Comércio - Administração Regional no Estado de São Paulo. ;2023. .183. p. ISBN:978-85-9493-279. .(Coleção Democracia Digital) .
PMCID: PMC10929878

Nos anos 1980, o acelerado desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação (TIC) e o processo de financeirização da economia global inaugurou uma nova fase do capitalismo, da economia digital e de exploração da força de trabalho global, ao modular os processos tecnossociais em um modelo mediado pelas tecnologias e plataformas digitais.

Antes mesmo das plataformas, as tecnologias digitais já existiam para gerir e controlar o trabalho. Como exemplos, Antunes & Braga 1 citam os “infoproletários” para designar a exploração e controle virtual dos(as) trabalhadores(as) de call center e dos(as) programadores(as) de software, que vivenciam uma autonomia paradoxal, cada vez mais reféns da produtividade de quem os contrata.

Na divisão internacional do trabalho, as tecnologias digitais, além de conectar e articular várias formas produtivas - da indústria aos serviços -, também conseguiu obter maior eficácia produtiva, à medida que intensificou o trabalho e a vigilância sobre os(as) trabalhadores(as). Além disso, em um cenário de desemprego estrutural e de trabalho informal, mais comuns nos países periféricos do Sul Global, a gig economy, ou economia de bicos, aparece como única saída de sobrevivência para 61% dos trabalhadores(as) informais no mundo, já que o desemprego atinge cerca de 207 milhões de pessoas 2.

No Brasil, a informalidade também é elevada e dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que 41% da população ocupada trabalhavam sem carteira ou por conta própria 3. Em 2022, cerca de 1,5 milhão de brasileiros(as) realizavam trabalho por meio de plataformas digitais de serviços, enquanto 628 mil utilizavam plataformas de comércio. Nesse período, entre os trabalhadores autônomos, 9,8% da população ocupada realizava trabalho remoto e 7,7% teletrabalho exclusivamente 4. O enorme contingente de trabalhadores(as) sem proteção social e com fatores de risco potenciais é um desafio para a saúde pública.

Nesse cenário, no livro Trabalho por Plataformas Digitais: Do Aprofundamento da Precarização à Busca por Alternativas Democráticas5, os autores Rafael Grohmann & Julice Salvagni problematizam o impacto das mudanças promovidas pelas plataformas digitais como um novo tipo de organização de trabalho que se reapropria da informalidade para extração do mais valor, além de aumentar a precariedade e a exploração de trabalhadores(as), em um cenário sem precedentes de trabalho sob demanda, mediadas por empresas que se utilizam das tecnologias e plataformas digitais como forma de exploração da força de trabalho.

No capítulo 1, sobre o trabalho por plataformas digitais, os autores nos alertam sobre as diferenças conceituais entre plataformização e uberização e elegem como campo de investigação todo o trabalho que é mediado, organizado, controlado e/ou governado pelas plataformas. Pontuam que o trabalho continua sendo uma atividade humana que vai além das plataformas digitais; entretanto, o amplo processo de informatização modificou as formas de gerenciamento, controle e organização do trabalho, com ênfase no autogerenciamento subordinado e de desempenho individual, em que a subjunção do trabalho informal pelo capital transformou cada trabalhador e trabalhadora em “trabalhador sob demanda”. Ou seja, apesar de a circulação de pessoas e mercadorias se dar por intermédio das plataformas, ainda existe uma dependência de várias formas de trabalho vivo e com vigilância algorítmica dos seus rastros digitais.

No capítulo 2, sobre quem são os trabalhadores por plataformas, os autores destacam que, no neoliberalismo, o uso das tecnologias, a serviço do capital, não é neutro e sua dispersão espacial é, ao mesmo tempo, global e local em função do setor econômico, das habilidades e complexidades do tipo de trabalho requerido (de microtarefas repetitivas à desenvolvimento de softwares) e das ocupações (entregadores, motoristas, professores, empregados domésticos, freelancers etc.). Entrecortados por marcadores sociais de desigualdades e diferenças, no trabalho por plataformas se entrelaçam clivagens de raça, gênero, território, além de, em seus contextos, culturas e dinâmicas interseccionais. Embora os entregadores e motoristas de aplicativos sejam mais conhecidos, eles representam a ponta do iceberg. No universo da precarização do trabalho digital, estão incluídos os desenvolvedores de inteligência artificial (IA), fazendeiros de cliques, criadores de conteúdo e freelancers, totalizando mais de 160 milhões de trabalhadores no mundo, a maioria do Sul Global. Somente no Brasil, há mais de cinquenta plataformas de microtrabalho e microtarefas de baixa complexidade e elevada repetitividade.

No capítulo 3, sobre os mecanismos do trabalho por plataformas, a arquitetura assentada sobre o gerenciamento algorítmico e a datificação representa as principais alavancas na financeirização e nos ganhos de capital, materializados pela racionalidade neoliberal. O gerenciamento algorítmico do trabalho é um conjunto de práticas de supervisão, governança e controle sobre os(as) trabalhadores(as) de forma remota. Além disso, no design original, as plataformas desconsideram as diferenças de raça e gênero e são projetadas para desarticular a comunicação e organização entre esses(as) trabalhadores(as).

No capítulo 4, sobre saídas para o trabalho de plataformas, os autores apontam algumas brechas e fissuras na lógica das plataformas digitais para driblar o algoritmo e resistir às pressões individuais cotidianas. Entretanto, no âmbito coletivo, é necessário que a maioria se reconheça como força de trabalho explorada, não como empreendedores. Embora as pautas entre os trabalhadores de aplicativos e plataformas não sejam homogêneas, considerando-se as leis de trabalho digno e decente da Organização Internacional do Trabalho (OIT), são destacados cinco princípios para empregos em plataformas digitais, seja nas ruas ou em casa: remuneração, condições de trabalho, contratos, gestão e representação. No Brasil, em 2023, a Aliança Nacional dos Entregadores de Aplicativos reivindicou, sobretudo, a formalização das relações de trabalho, da proteção social para acidentes de trabalho, das garantias de remuneração, da liberdade de associação e da sindicalização. Sobre a rigidez das plataformas, algumas universidades, em parceria com laboratórios de inovação, estão desenvolvendo um sistema digital público, para o livre acesso dos trabalhadores. Uma alternativa é o cooperativismo de plataforma.

No capítulo 5, sobre o cooperativismo de plataforma, os autores discutem como essas tecnologias podem ser apropriadas pelos trabalhadores, a partir de um movimento de luta de classes, ou seja, de baixo para cima, incluindo a possibilidade de políticas públicas, considerando sete princípios internacionais das cooperativas de trabalho: adesão livre e voluntária; gestão democrática; participação econômica dos membros; autonomia e independência; educação, formação e informação; intercooperação; interesse pela comunidade. As iniciativas e experiências internacionais no cooperativismo de plataformas são relevantes e podem servir de referência; entretanto, os autores pontuam as dificuldades em “tropicalizar” modelos do Norte Global e defendem a adaptação do cooperativismo de projetos à cultura e realidade brasileira, tanto em âmbito regional quanto nacional.

E qual é o futuro do trabalho por plataformas? Para os autores, a resposta depende da capacidade de organização dos movimentos sociais, considerando-se as brechas e fissuras em torno das formas emergentes de solidariedade e estruturação.

O desenvolvimento das tecnologias digitais modificou os processos e a organização do trabalho e amplificou globalmente as relações de trabalho individualizadas e invisibilizadas. A apropriação hegemônica das TIC pelo capital, embora não substitua o trabalho humano, visto que as máquinas não criam valor, potencializa e intensifica o trabalho, o controle e a vigilância sobre os assalariados formais (nos setores da indústria 4.0, dos serviços e do comércio) e informais, incluindo a enorme força de trabalho tipificada nesse livro como parte de um iceberg sem saída de “escravidão digital” 6.

A pandemia de COVID-19 normalizou e ampliou o trabalho digital, que abrange as atividades em home office e nas ruas, com entregadores e motoristas por aplicativos, também intensificou a precarização do trabalho e eliminou a separação entre a vida privada e o trabalho. Nesse cenário, é perceptível o aumento do sofrimento e dos transtornos mentais, para aqueles que trabalham em casa, e dos acidentes graves, entre os motofretistas 7. O desafio do Sistema Único de Saúde (SUS) e sua plataforma digital (e-SUS) é conseguir adequar sua rede para acolher as demandas dessa força de trabalho cada vez mais refém das tecnologias digitais. A agenda da telessaúde pode ser o caminho mais promissor.

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  • 1.Antunes R, Braga R. Infoproletários: degradação real do trabalho virtual. São Paulo: Boitempo; 2009. [Google Scholar]
  • 2.World Health OrganizationInternational Labour Organization . Mental health at work. Genebra: World Health Organization/International Labour Organization; 2022. [Google Scholar]
  • 3.Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística Síntese de indicadores sociais - 2023. Uma análise das condições de vida da população brasileira. [21/Fev/2024]. https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/media/com_mediaibge/arquivos/070903d82038130a93f0374ada39f81d.pdf .
  • 4.Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística Teletrabalho e trabalho por meio de plataformas digitais 2022. PNAD contínua. [21/Fev/2024]. https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv102035_informativo.pdf .
  • 5.Grohman R, Salvagni J. Trabalho por plataformas digitais: do aprofundamento da precarização à busca por alternativas democráticas. São Paulo: Serviço Social do Comércio - Administração Regional no Estado de São Paulo; 2023. (Coleção Democracia Digital) [Google Scholar]
  • 6.Antunes R. Uberização, trabalho digital e indústria 4.0. São Paulo: Boitempo; 2020. [Google Scholar]
  • 7.Ferreira FG, Mendes ED, Naves ET. O mal-estar na uberização reflexões acerca do trabalho na perspectiva da lógica neoliberal. Cad Psicol Soc Trab. 2023;26:e–195592. [Google Scholar]

Articles from Cadernos de Saúde Pública are provided here courtesy of Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz

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