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editorial
. 2023 Mar 1;120(2):e20230031. [Article in Portuguese] doi: 10.36660/abc.20230031
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Um Caleidoscópio Bioquímico Chamado Troponina

Fabrício Braga 1,2,3
PMCID: PMC12080596  PMID: 36921185

“Não existe essa coisa de novas ideias. Nos simplesmente tomamos um monte de velhas ideias e as colocamos em um tipo de caleidoscópio mental”

A frase acima atribuída ao colossal escritor americano, Mark Twain (1835-1910) me traz uma provocação um tanto quanto incomodativa. As coisas sempre estiverem aqui. Tudo que é novo sempre esteve aqui e passa a “existir” até alguém olhe o que é antigo de um jeito diferente. Por exemplo, energia elétrica sempre esteve aqui, mas para evoluir de misticismo a utilidade doméstica muitos tiveram que ver esse fenômeno de forma diferente.

Dentre as etapas da propedêutica médica o prognóstico, essa propriedade de um juízo antecipado da evolução de uma condição clínica, é, a meu ver, a mais desafiadora. Avanços tecnológicos em diversas áreas permitiram um crescimento na habilidade diagnóstica do médico. Porém, junto como ela, veio a angústia do que fazer, que frequentemente se apodera do pensamento do médico mesmo em seus momentos de descanso. Medico ou não medico? Opero ou não opero? Coloco no CTI ou no quarto? Dou boas notícias a família ou preparo-os para um destino ruim de seu ente querido? Portanto, instrumentos que tragam a valor presente a evolução clínica são de extrema valia na medicina de precisão.

Os biomarcadores cardíacos sorológicos promoveram uma verdadeira revolução, não só no diagnóstico quanto no prognóstico das síndromes coronarianas agudas (SCA).1 Introduzida na prática clínica no final dos anos 50, a transaminase oxalacética (TGO) rapidamente foi incorporada na definição de infarto da Organização Mundial de Saúde.2 Ao longo dos anos 70, lactato desidrogenase (LDH) e creatinofosfoquinase (CPK) passaram também a ser utilizados como biomarcadores. A todos faltavam uma propriedade importante a testes diagnósticos: especificidade, uma vez que estando presentes no músculo esqueléticos, também se elevam nos danos musculares. No início da década de 80, a fração MB da CPK (CK-MB), mais prevalente no músculo cardíaco que no esquelético, promoveu modestos avanços na especificidade.3

Em meados da década de 90, ainda como residente de cardiologia do Hospital Universitário Pedro Ernesto (UERJ), vivi com entusiasmo a chegada de um novo marcador diagnóstico para as SCA: a Troponina. Rápida, sensível e bem mais específico, foi uma verdadeira revolução na abordagem diagnóstica e prognóstica das doenças cardiovascular. Passamos a poder ver aquele paciente com dor torácica e ECG normal na sala de emergência de um outro jeito, embora eles sempre estivessem lá.

Mas o século XXI reservava uma importância ainda maior a Troponina. Seu papel na avaliação prognóstica ampliou-se a várias situações. Da doença pulmonar obstrutiva crônica4 a insuficiência renal.5 De pacientes críticos6 a corredores de ultramaratona.7 Pacientes clinicamente semelhantes, passaram a ser vistos com detentores de diferentes histórias naturais de suas doenças pelo “olhar” da Troponina.

Desde a Segunda Guerra mundial, a pandemia de COVID-19 foi o maior desafio imposto a humanidade. Do ponto de vista sanitário, talvez o maior desafio na idade contemporânea. Com um número exponencialmente crescente de casos que lotaram unidades hospitalares, estratificar risco passou a ser relevante como nunca, visto que os escassos leitos de terapia intensiva passaram a ser preciosos.

Já tendo mostrado seu potencial prognóstico na epidemia de Influenza A (H1N1) em 2009,8 rapidamente começaram a surgir publicações evidenciando que, mais uma vez, a Troponina poderia estratificar o risco nos pacientes hospitalizados com COVID-19.9,10

Neste número dos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, Barbosa et al.,11 nos trazem mais uma evidência do valor prognóstico da Troponina em pacientes com COVID-19. Numa coorte derivada do Brazilian COVID-19 Registry, contendo 2.925 indivíduos admitidos em 31 hospitais, de 17 cidades brasileiras, elevações de Troponina (troponina I ou T> percentil 99%) nas primeiras 24 horas após admissão hospitalar mais que dobraram o risco de morrer (RR 2,03, IC 95% 1,60-2,58) e aumentaram em 87% a necessidade de ventilação mecânica. De certo que pacientes mais velhos e com mais comorbidades apresentavam uma incidência maior de elevação de troponina. Todavia, após elegante ajuste estatístico, o potencial preditor da Troponina se manteve.

Diversos mecanismos são propostos para a elevação de Troponina na COVID-19: interação do SARS-CoV2 com receptor da enzima conversora da angiotensina, presente no miócito cardíaco, resposta inflamatória sistêmica, injúria imunomediada e etc. Mas se embora, o que faz suas concentrações séricas subirem ainda não esteja claro, não há mais dúvida de que uma Troponina elevada em pacientes com COVID-19 determina um prognóstico pior. Novamente, a presença de um valor elevado de Troponina nas primeiras 24 horas nos permitia “enxergá-lo” de uma forma diferente.

Otimista, creio que tenhamos evoluído como sociedade após esses 3 anos de pandemia, e o que porventura tenhamos aprendido nos permita mitigar as chances de algo semelhante acontecer novamente. Mas é certo que novas doenças infecciosas irão aparecer. Novas epidemias, quiçá pandemias desafiarão os médicos do futuro, e estes precisarão de novas ideias, feitas de ideias velhas olhadas pelo caleidoscópio de uma mente criativa. Que não se esqueçam de dosar a troponina.

Footnotes

Minieditorial referente ao artigo: Lesão Miocárdica e Prognóstico em Pacientes Hospitalizados com COVID-19 no Brasil: Resultados do Registro Nacional de COVID-19

Referências

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Arq Bras Cardiol. 2023 Mar 1;120(2):e20230031. [Article in English]

A Biochemical Kaleidoscope Called Troponin

Fabrício Braga 1,2,3

“There is no such thing as new ideas. We just take a bunch of old ideas and put them into a kind of mental kaleidoscope.”

The phrase above attributed to the colossal American writer Mark Twain (1835-1910) brings me a somewhat disturbing provocation. Things are always here. Everything new has always been here and starts to “exist” until someone looks at what is old differently. For example, electrical energy has always been here, but to evolve from mysticism to domestic utility, many had to see this phenomenon differently.

Among the stages of medical propaedeutics, prognosis, this property of an anticipated judgment of the evolution of a clinical condition, is, in my view, the most challenging. Technological advances in several areas have allowed the physician’s diagnostic ability to grow. However, along with it came the anguish of what to do, which often takes over the doctor’s thoughts even in his moments of rest. To prescribe or not to prescribe? To operate or not operate? Do I put it in the ICU or the room? Do I give the family good news or prepare them for a bad fate for their loved one? Therefore, instruments that bring clinical evolution to present value are extremely valuable in precision medicine.

Serological cardiac biomarkers promoted a real revolution, not only in the diagnosis but also in the prognosis of acute coronary syndromes (ACS).1 Introduced into clinical practice in the late 1950s, oxaloacetic transaminase (GOT) was quickly incorporated into the World Health Organization’s definition of infarction.2 Throughout the 1970s, lactate dehydrogenase (LDH) and creatine phosphokinase (CPK) also began to be used as biomarkers. All tests lacked an important property: specificity; since they are present in skeletal muscle, they also increase muscle damage. In the early 1980s, the MB fraction of CPK (CK-MB), more prevalent in cardiac muscle than skeletal muscle, promoted modest advances in specificity.3

In the mid-1990s, still as a cardiology resident at the Hospital Universitário Pedro Ernesto (UERJ), I experienced the arrival of a new diagnostic marker for ACS with enthusiasm: Troponin. Fast, sensitive, and much more specific, it was a true revolution in cardiovascular disease diagnostic and prognostic approach. We could see patients with chest pain and normal ECG in the emergency room in a different way, even though they were always there.

Nevertheless, the 21st century reserved even greater importance for Troponin. Its role in prognostic evaluation has extended to several situations. From chronic obstructive pulmonary disease4 to renal failure.5 From critical patients6 to ultramarathon runners.7 Clinically similar patients began to be seen as holders of different natural histories of their diseases by the “look” of Troponin.

Since World War II, the COVID-19 pandemic has been humanity’s greatest challenge. From a sanitary point of view, perhaps the greatest challenge in the contemporary age. With an exponentially growing number of cases filling hospital units, stratifying risk has become more relevant than ever as scarce intensive care beds have become precious.

Having already shown its prognostic potential in the Influenza A (H1N1) epidemic in 2009,8 publications quickly began to appear, showing that, once again, Troponin could stratify risk in patients hospitalized with COVID-19.9,10

In this number of the Arquivos Brasileiros de Cardiologia, Barbosa et al.11 bring us more evidence of the prognostic value of Troponin in patients with COVID-19. In a cohort derived from the Brazilian COVID-19 Registry, containing 2,925 individuals admitted to 31 hospitals from 17 Brazilian cities, elevations of Troponin (Troponin I or T > 99% percentile) in the first 24 hours after hospital admission more than doubled the risk of dying (RR 2.03, 95% CI 1.60-2.58) and increased the need for mechanical ventilation by 87%. Certainly, older patients with more comorbidities had a higher incidence of troponin elevation. However, after elegant statistical adjustment, Troponin’s predictive potential was maintained.

Several mechanisms are proposed for the elevation of Troponin in COVID-19: interaction of SARS-CoV2 with angiotensin-converting enzyme receptor, present in cardiac myocytes, systemic inflammatory response, immune-mediated injury, etc. However, although what causes their serum concentrations to rise is still unclear, there is no doubt that an elevated Troponin in patients with COVID-19 determines a worse prognosis. Again, a high Troponin value in the first 24 hours allowed us to “see” it differently.

Optimistic, I believe that we have evolved as a society after these 3 years of the pandemic and that perhaps we have learned to allow us to mitigate the chances of something similar happening again. Nevertheless, new infectious diseases will certainly appear. New epidemics, perhaps pandemics, will challenge future doctors, and they will need new ideas made from old ideas seen through the kaleidoscope of a creative mind. Do not forget to measure the Troponin.

Footnotes

Short Editorial related to the article: Myocardial Injury and Prognosis in Hospitalized COVID-19 Patients in Brazil: Results From The Brazilian COVID-19 Registry


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