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. 2025 Oct 13;122(9):e20250530. [Article in Portuguese] doi: 10.36660/abc.20250530
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A Importância da Identificação dos Fenótipos na Hipertensão Arterial

Rui Póvoa 1,2,Correspondência:
PMCID: PMC12674841  PMID: 41379172

A avaliação dos níveis pressóricos envolve a compreensão da relação da pressão arterial (PA) com a saúde de forma global, e isto implica a correta medição, seguindo os critérios preconizados nas diretrizes, para encontrar o verdadeiro significado da medida no consultório e fora dele. Dentro deste espectro hipertensivo, com as medidas em momentos variáveis, conseguimos definir diversos fenótipos hipertensivos e a sua importância no risco cardiovascular. Estes conhecimentos foram se acumulando ao longo do tempo, e lapidados cada vez mais com a evolução do conhecimento médico e tecnológico.

A primeira medida experimental da PA foi feita no ano de 1711 por Stephen Halles utilizando uma cânula na artéria crural de um cavalo e conectando-a a um tubo de vidro que elevou o sangue a dois metros e meio acima da altura do animal. 1 Entretanto, a hipertensão arterial (HA) só foi clinicamente valorizada em 1896 com a invenção do primeiro esfigmomanômetro de coluna de mercúrio pelo italiano Scipione Riva-Rocci, utilizando um manguito de 4,4 cm de largura. 2

Em 1905, um cirurgião do exército russo Nikolai Sergeyevich Korotkov desenvolveu o método auscultatório da medida indireta da PA, descrevendo os ruídos auscultatórios da PA sistólica e diastólica, técnica utilizada ainda atualmente. 3

Em 1945 os estudos em Framingham mostraram que a PA no consultório é um importante fator de risco para praticamente todas as doenças cardiovasculares, principalmente o acidente vascular cerebral, insuficiência cardíaca, infarto do miocárdio, etc. 4 Foi o momento em que foi valorizada como um dos mais importantes fatores de risco cardiovascular.

Em vista da PA ser uma variável biológica e sofrer influências de diversos fenômenos internos e externos surgiu a dúvida se a simples medida na consulta médica tinha uma representatividade semelhante às medidas durante todo o dia. A avaliação fora do consultório e no sono refletem o verdadeiro cotidiano pressórico. Na década de 1960, Herbert Kain, Maurice Sokolow e Allen Hinman, desenvolveram equipamentos para medições contínuas, e não só restritas ao ambiente médico. 5 A monitorização ambulatorial da pressão arterial (MAPA) é um método que registra a PA durante 24 horas, enquanto o paciente realiza suas atividades diárias, permitindo uma avaliação mais precisa das variações da PA, incluindo as medidas durante o sono. A medida residencial da pressão arterial (MRPA) é outra opção para a medida fora do consultório com vantagens e desvantagens em relação a MAPA, porém mais factível em populações carentes. 6 Da mesma forma que a medida de consultório é um importante fator de risco, a medida fora do consultório se correlacionou de forma ainda mais intensa com o risco cardiovascular. 7

A medida de consultório e fora dele permitiu a definição de diversos outros fenótipos da HA, dependendo do uso ou não de fármacos anti-hipertensivos, com características próprias e riscos peculiares. Com a evolução do conhecimento sobre a HA ao longo de mais de cem anos se verificou que a simples medida, que ainda é uma rotina na prática médica, não explicava o amplo espectro da doença hipertensiva. A avaliação fora do consultório complementa algumas lacunas no imenso complexo multifatorial da hipertensão. Com a descrição e definição destes novos conceitos sobre os diversos fenótipos, podemos entender e quantificar o risco cardiovascular da hipertensão do avental, do efeito do avental branco, da hipertensão mascarada e tantos outros fenótipos. Entretanto a prevalência e a distribuição em populações especificas ainda não é totalmente conhecida e motivo de pesquisas epidemiológicas, principalmente no Brasil.

O estudo de Barbosa et al., avaliou quatro fenótipos na população brasileira e pela primeira vez a quantificação pelo sexo. Os resultados foram interessantes pois as mulheres apresentam um melhor controle da HA. Tinham uma maior expressividade da hipertensão controlada e hipertensão do avental branco não controlada, em relação aos homens. O sexo masculino apresentou maior frequência de hipertensão sustentada não controlada e hipertensão mascarada não controlada. 8 O método utilizado no estudo foi a MRPA que diagnostica de forma similar a MAPA os diversos fenótipos da hipertensão. 9 Ambos os métodos apresentam valor similar em prever eventos cardiovasculares, principalmente na hipertensão mascarada e na hipertensão mascarada não controlada. 10

Neste estudo de Barbosa et al., 8 o controle pressórico, no consultório e domiciliar, foi de 40,3%. Números que levantam uma bandeira vermelha e refletem a realidade brasileira. Este alerta que o estudo expõe pode servir para uma conscientização maior dos sistemas de saúde, e da necessidade de mais campanhas na população, da importância do tratamento correto e controle desta doença crônica de alta prevalência. Além disso, a identificação destes fenótipos ajuda na abordagem terapêutica mais individualizada maximizando a ação para atingir as metas e minimizando do risco ao paciente.

O conhecimento da HA evoluiu bastante desde a primeira medida de Riva-Rocci, e no caminho desta estrada os conceitos se aprimoraram ainda mais com a medicina baseada em evidências e a precisão das medidas com a incorporação tecnológica. Felizmente não existe o ponto final nesta estrada e a página da história da hipertensão é apenas um simples rabisco com um mar imenso de folhas em branco a serem escritas.

Footnotes

Minieditorial referente ao artigo: Identificação de Fenótipos de Hipertensão entre os Sexos: Um Estudo de Vida Real com 7.852 Pacientes em Tratamento

Referências

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Arq Bras Cardiol. 2025 Oct 13;122(9):e20250530. [Article in English] doi: 10.36660/abc.20250530i

The Importance of Identifying Phenotypes in Arterial Hypertension

Rui Póvoa 1,2,Mailing Address:

Assessing blood pressure (BP) levels involves understanding the relationship between BP and overall health. This requires accurate measurement, following the criteria recommended in the guidelines, to determine the true meaning of the measurement in the office and beyond. Within this hypertensive spectrum, with measurements at varying times, we can define various hypertensive phenotypes and their significance for cardiovascular risk. This knowledge has accumulated over time and has been increasingly refined with the advancement of medical and technological knowledge.

The first experimental measurement of BP was made in 1711 by Stephen Halles using a cannula in the crural artery of a horse and connecting it to a glass tube that raised the blood two and a half meters above the height of the animal. 1 However, arterial hypertension was only clinically valued in 1896 with the invention of the first mercury column sphygmomanometer by the Italian Scipione Riva-Rocci, using a 4.4 cm wide cuff. 2

In 1905, a Russian army surgeon, Nikolai Sergeyevich Korotkov, developed the auscultatory method of indirect BP measurement, describing the auscultatory sounds of systolic and diastolic BP, a technique still used today. 3

In 1945, studies in Framingham showed that office BP is an important risk factor for virtually all cardiovascular diseases, particularly stroke, heart failure, myocardial infarction, etc. 4 This was the time when it was recognized as one of the most important cardiovascular risk factors.

Because BP is a biological variable and is influenced by various internal and external phenomena, the question arose whether simple measurements taken during a doctor's appointment were as representative as measurements taken throughout the day. Out-of-office and sleep measurements reflect true daily BP. In the 1960s, Herbert Kain, Maurice Sokolow, and Allen Hinman developed equipment for continuous measurements, not limited to the medical setting. 5 Ambulatory blood pressure monitoring (ABPM) is a method that records BP over 24 hours while the patient carries out daily activities, allowing for a more accurate assessment of BP variations, including measurements taken during sleep. Home blood pressure monitoring (HBPM) is another out-of-office measurement option with advantages and disadvantages compared to ABPM, but it is more feasible in underserved populations. 6 Just as office measurement is an important risk factor, out-of-office measurement correlated even more strongly with cardiovascular risk. 7

In-office and out-of-office measurements have allowed the definition of several other phenotypes of hypertension, depending on the use or non-use of antihypertensive drugs, each with its own characteristics and unique risks. As knowledge about hypertension has evolved over more than a hundred years, it has become clear that simple measurements, still routine in medical practice, do not explain the broad spectrum of hypertensive disease. Out-of-office assessment fills some gaps in the immense multifactorial complex of hypertension. By describing and defining these new concepts about the various phenotypes, we can understand and quantify the cardiovascular risk of white coat hypertension, the white coat effect, masked hypertension, and many other phenotypes. However, the prevalence and distribution in specific populations are still not fully known and are the subject of epidemiological research, particularly in Brazil.

The study by Eibel et al. evaluated four phenotypes in the Brazilian population and, for the first time, quantified them by sex. The results were interesting because women had better hypertension control. They had a greater prevalence of controlled hypertension and uncontrolled white-coat hypertension than men. Men had a higher frequency of uncontrolled sustained hypertension and uncontrolled masked hypertension. 8 The method used in the study was HBPM, which diagnoses the various hypertension phenotypes in a similar way to ABPM. 9 Both methods have similar value in predicting cardiovascular events, especially in masked hypertension and uncontrolled masked hypertension. 10

In this study by Eibel et al., 8 BP control, both in the office and at home, was 40.3%. These figures raise a red flag and reflect the Brazilian reality. This warning presented by the study can serve to raise awareness within healthcare systems and the need for more public campaigns on the importance of appropriate treatment and control of this highly prevalent chronic disease. Furthermore, identifying these phenotypes helps in a more individualized therapeutic approach, maximizing action to achieve goals and minimizing patient risk.

Knowledge of hypertension has evolved significantly since Riva-Rocci's first measurement, and along the way, concepts have been further refined by evidence-based medicine and the precision of measurements through the incorporation of technology. Fortunately, there is no end to this journey, and the history of hypertension is just a simple scribble with a vast sea of blank pages yet to be written.

Footnotes

Short Editorial related to the article: Identification of Hypertension Phenotypes by Sex: A Real-World Study of 7,852 Treated Patients


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