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editorial
. 2026 May 11;123(3):e20260305. [Article in Portuguese] doi: 10.36660/abc.20260305
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Estratificação de Risco na Insuficiência Cardíaca: O Papel do Escore MAGGIC em uma População Brasileira

Evandro José Cesarino 1,2,Correspondência:, Marildes Luiza de Castro 3, Larissa Neto Espíndola 4,5, Regina Celia Garcia de Andrade 1, Carolina Baraldi Araujo Restini 6
PMCID: PMC13398839  PMID: 42307304

A insuficiência cardíaca (IC) representa um dos principais desafios da cardiologia contemporânea e é a principal causa de internação por doença cardiovascular no Brasil, especialmente entre idosos.1 Além da alta carga de morbidade e mortalidade, a IC está associada a altas taxas de reinternação hospitalar e a um impacto significativo nos sistemas de saúde.2 Diante desse cenário, a identificação precoce de pacientes com maior risco de eventos adversos se tornou um componente fundamental do manejo clínico da doença.

As ferramentas de estratificação de risco desempenham um papel central nesse processo, auxiliando na estimativa do prognóstico, no planejamento terapêutico e na tomada de decisões clínicas compartilhadas com pacientes e familiares.

Diversos modelos prognósticos foram desenvolvidos para esse fim, incluindo o Modelo de Insuficiência Cardíaca de Seattle e o PREDICT-HF.3,4 No entanto, entre os escores disponíveis, o MAGGIC (Meta-Analysis Global Group in Chronic Heart Failure) se destaca por sua ampla validação e aplicabilidade clínica.5,6

Modelos desenvolvidos em populações específicas podem apresentar desempenho diferente em outros contextos clínicos, reforçando a importância da validação externa em diferentes contextos populacionais.7 No Brasil, apesar da alta prevalência de IC, estudos que avaliam o desempenho de modelos prognósticos amplamente utilizados na prática internacional ainda são escassos.

Nesse contexto, o estudo "Desempenho do Escore MAGGIC em Indivíduos com Insuficiência Cardíaca: Validação em uma População Brasileira" contribui de forma relevante ao avaliar o desempenho do escore MAGGIC em uma coorte brasileira de pacientes acompanhados em um ambulatório especializado em IC.8

No estudo, o escore MAGGIC apresentou boa capacidade discriminativa (AUC 0,72) e calibração adequada, resultados comparáveis aos observados em validações internacionais. Um aspecto particularmente relevante do estudo foi a análise estratificada por sexo, que demonstrou desempenho semelhante do modelo em homens e mulheres.

A consideração das diferenças específicas de sexo na IC tem recebido crescente atenção na literatura. Homens e mulheres apresentam diferenças importantes na epidemiologia, etiologia, remodelamento cardíaco e resposta ao tratamento.9 As mulheres, por exemplo, têm maior prevalência de IC com fração de ejeção preservada, enquanto os homens apresentam maior frequência de etiologia isquêmica e disfunção sistólica.10 Essas diferenças podem influenciar o desempenho dos modelos prognósticos, tornando a avaliação de sua precisão em ambos os sexos particularmente relevante.11

Portanto, os achados do presente estudo reforçam evidências anteriores de que o escore MAGGIC apresenta desempenho consistente entre os sexos. Esse resultado tem implicações clínicas relevantes, sugerindo que o modelo pode ser aplicado com segurança à estratificação prognóstica de homens e mulheres com IC na população brasileira.12 Outro achado interessante foi a observação de discrepâncias entre a mortalidade prevista e a observada em algumas categorias de risco. Houve uma tendência à subestimação da mortalidade em grupos de menor risco e uma leve superestimação em pacientes de alto risco. Esse fenômeno já foi descrito em outras validações do escore e pode refletir diferenças nas características clínicas das populações avaliadas ou mudanças no manejo terapêutico ao longo do tempo8 (Figura 1).

Figura 1. Validação da estratificação de risco de insuficiência cardíaca em brasileiros utilizando o escore MAGGIC.

Figura 1

Na prática clínica, o escore MAGGIC oferece uma vantagem significativa por utilizar apenas variáveis clínicas e laboratoriais amplamente disponíveis, tornando-o adequado para aplicação em diferentes contextos de saúde, incluindo ambientes com recursos limitados, uma realidade ainda presente em diversas regiões do Brasil.

Apesar das contribuições do estudo, algumas limitações devem ser consideradas. A análise foi conduzida em um único centro terciário, o que pode limitar a generalização dos resultados. Além disso, tanto a coorte analisada quanto o desenvolvimento original do escore ocorreram antes da ampla incorporação de terapias contemporâneas modificadoras do prognóstico, como os inibidores do cotransportador de sódio-glicose tipo 2 e o sacubitril valsartana, que demonstraram reduzir a mortalidade e as hospitalizações em pacientes com IC.13 A incorporação dessas terapias pode alterar o perfil de risco das populações atuais, reforçando a necessidade de reavaliar periodicamente o desempenho dos modelos prognósticos.

Em resumo, a validação do escore MAGGIC em uma população brasileira reforça sua utilidade como ferramenta de estratificação de risco na prática clínica. O desempenho consistente do modelo e a ausência de diferenças relevantes entre homens e mulheres corroboram sua aplicabilidade na população nacional. À medida que novas terapias modificadoras do prognóstico continuam a transformar o tratamento da IC, a integração de modelos prognósticos simples e validados, adaptados a diferentes realidades populacionais, permanecerá essencial para apoiar as decisões clínicas e otimizar o cuidado ao paciente.

Footnotes

Minieditorial referente ao artigo: Desempenho do Escore MAGGIC em Indivíduos com Insuficiência Cardíaca: Validação em uma População Brasileira

Referências

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Arq Bras Cardiol. 2026 May 11;123(3):e20260305. [Article in English] doi: 10.36660/abc.20260305i

Risk Stratification in Heart Failure: The Role of the MAGGIC Score in a Brazilian Population

Evandro José Cesarino 1,2,Mailing Address:, Marildes Luiza de Castro 3, Larissa Neto Espíndola 4,5, Regina Celia Garcia de Andrade 1, Carolina Baraldi Araujo Restini 6

Heart failure (HF) represents one of the main challenges in contemporary cardiology and is the leading cause of hospitalization for cardiovascular disease in Brazil, especially among older adults.1 In addition to the high burden of morbidity and mortality, HF is associated with high rates of hospital readmission and a significant impact on healthcare systems.2 Given this scenario, early identification of patients at higher risk of adverse events has become a fundamental component of the clinical management of the disease.

Risk stratification tools play a central role in this process, assisting in prognostic estimation, therapeutic planning, and shared clinical decision-making with patients and families.

Several prognostic models have been developed for this purpose, including the Seattle Heart Failure Model and PREDICT-HF.3,4 However, among the available scores, MAGGIC (Meta-Analysis Global Group in Chronic Heart Failure) stands out for its broad validation and clinical applicability.5,6

Models developed in specific populations may exhibit different performance in other clinical settings, reinforcing the importance of external validation in different population contexts.7 In Brazil, despite the high burden of HF, studies evaluating the performance of prognostic models widely used in international practice are still scarce.

In this context, the study "Performance of the MAGGIC Score in Individuals with Heart Failure: Validation in a Brazilian Population," makes a relevant contribution by evaluating the performance of the MAGGIC score in a Brazilian cohort of patients followed in a specialized outpatient clinic for HF.8

In the study, the MAGGIC score showed good discriminative ability (AUC 0.72) and adequate calibration, results comparable to those observed in international validations. A particularly relevant aspect of the study was the stratified analysis by sex, which demonstrated similar model performance in men and women.

Consideration of sex-specific differences in HF has received increasing attention in the literature. Men and women exhibit important differences in epidemiology, etiology, cardiac remodeling, and response to treatment.9 Women, for example, have a higher prevalence of HF with preserved ejection fraction, while men have a higher frequency of ischemic etiology and systolic dysfunction.10 These differences can influence the performance of prognostic models, making the evaluation of their accuracy in both sexes particularly relevant.11

Therefore, the findings of the present study reinforce prior evidence that the MAGGIC score performs consistently across sex. This result has relevant clinical implications, suggesting that the model can be safely applied to the prognostic stratification of men and women with HF in the Brazilian population.12 Another interesting finding was the observation of discrepancies between predicted and observed mortality in some risk categories. There was a tendency towards underestimation of mortality in lower-risk groups and slight overestimation in high-risk patients. This phenomenon has already been described in other validations of the score and may reflect differences in the clinical characteristics of the populations evaluated or changes in therapeutic management over time8 (Figure 1).

Figure 1. Validation of heart failure risk stratification in Brazilians using the MAGGIC score.

Figure 1

In clinical practice, the MAGGIC score offers a significant advantage because it uses only widely available clinical and laboratory variables, making it suitable for application in different healthcare settings, including resource-limited environments, a reality still present in several regions of Brazil.

Despite the study's contributions, some limitations should be considered. The analysis was conducted at a single tertiary center, which may limit the generalizability of the results. Furthermore, both the cohort analyzed and the score's original development occurred before the widespread incorporation of contemporary prognosis-modifying therapies, such as sodium-glucose cotransporter type 2 inhibitors and sacubitril valsartan, which have been shown to reduce mortality and hospitalizations in patients with HF.13 The incorporation of these therapies may alter the risk profile of contemporary populations, reinforcing the need to reassess the performance of prognostic models periodically.

In summary, the validation of the MAGGIC score in a Brazilian population reinforces its usefulness as a risk stratification tool in clinical practice. The model's consistent performance and the absence of relevant differences between men and women support its applicability in the national population. As new prognosis-modifying therapies continue to transform the treatment of HF, the integration of simple, validated prognostic models tailored to different population realities will remain essential for supporting clinical decisions and optimizing patient care.

Footnotes

Short Editorial related to the article: Performance of the MAGGIC Score in Individuals with Heart Failure: Validation in a Brazilian Population


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