Relato de caso: Feminino, 78 anos, previamente hígida, com antecedente de obesidade grau II e hipertensão arterial sistêmica. Em fevereiro de 2019 internação hospitalar com quadro de anemia, insuficiência renal, hipercalcemia, lesões ósseas em coluna sacral. Após investigação hematológica foi feito diagnóstico de Mieloma Múltiplo IGG LAMBDA III B ISS3 R-ISS 2, com medula óssea extensamente infiltrada de plasmócitos (cerca de 60%). Indicado tratamento quimioterápico para paciente não elegível ao transplante de Medula Óssea autólogo, protocolo Dara –VMP (Daratumumab, velcade, melfalan, prednisona). Evolui satisfatoriamente com o tratamento proposto, redução de mais de 90% da carga tumoral, resolução da disfunção renal, normalização da hipercalcemia e melhora das lesões ósseas. Em julho de 2020, ainda em tratamento hematológico, apresentou infeção pelo novo Sars-CoV2, necessitando de internação hospitalar e cuidados clínicos. Durante a internação, próximo ao décimo dia da infecção, apresentou quadro inflamatório importante, com aumento de citocinas inflamatórias, piora respiratória, sendo indicado pela equipe assistencial o medicamento Tocilizumabe. Houve resolução do quadro inflamatório e infeccioso, porém após 10 dias do uso da medicação apresentou quadro de múltiplos nódulos arredondados, de localização disseminada, com biópsia confirmando plasmocitomas de características morfológicas anaplásicas, com KI67 elevado (80%). Realizado também biópsia de medula óssea com ausência de infiltração plasmocitária e exames laboratoriais séricos/urinários investigativos para mieloma múltiplo mostraram-se estáveis. Discussão: Desde dezembro de 2019, a nova pneumonia por coronavírus, denominada doença de coronavírus 2019 (COVID-19) pela Organização Mundial da Saúde (OMS), tem sido uma crise de saúde pública global preocupante. Pesquisas experimentais indicam que uma resposta imunológica excessiva e uma forte tempestade de citocinas, incluindo altos níveis de interleucina-6 (IL-6), são ativadas, principalmente, em casos de evoluções clínicas desfavoráveis. Nesse cenário, um medicamento chamado Tocilizumabe, imunoglobulina humanizada que se liga especificamente aos receptores de interleucina-6, tem se mostrado como um tratamento promissor em pacientes infectados por COVID-19. Nesse caso clínico apresentado, nossa paciente apresentou resposta satisfatória ao tratamento da infecção do COVID-19 após o uso do Tocilizumabe, porém em pouco espaço de tempo, evolui com progressão neoplásica atípica, com características celulares morfológicas diferentes da verificada no início do diagnóstico hematológico. Entendemos que possa ter ocorrido uma mera coincidência de recidiva tumoral com uso do medicamento, porém levanta-se a possiblidade de uma evolução clonal após o uso desse imunossupressor. Conclusão: Ainda que promissor no tratamento de COVID -19, novos estudos são necessários envolvendo a terapêutica com o medicamento Tocilizumabe, visto que o mesmo interage com sistema imunológico e, possivelmente, hematopoiético, como demonstrado no caso clínico acima descrito
RECAÍDA ATÍPICA DE MIELOMA MÚLTIPLO ASSOCIADA AO USO DE TOCILIZUMABE PARA COVID -19
Issue date 2020 Nov.
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