O transplante cardíaco (TC) tem sido associado a melhora significativa na sobrevida e na qualidade de vida em pacientes com insuficiência cardíaca (IC) avançada. Apesar de um aumento considerável na indicação de dispositivos de assistência ventricular esquerda, o TC ainda permanece a abordagem padrão-ouro neste contexto clínico.1 Embora seja considerado o tratamento padrão-para IC avançada, vários motivos têm prejudicado o uso disseminado do TC. A disponibilidade de doadores é limitada em comparação com o número crescente de receptores potenciais. Além disso, a maior expectativa de vida dos pacientes devido à melhor farmacoterapia da IC tem desafiado a contraindicação relacionada à idade para o procedimento, bem como a presença de mais comorbidades ligadas ao envelhecimento.2
Outro ponto a ser observado relacionado à candidatura ao TC é a hipertensão pulmonar (HP), que está presente em mais de 60% dos pacientes com IC com fração de ejeção reduzida (ICFEr) e em mais de 54% dos pacientes com IC com fração de ejeção preservada (ICFEp) e também pode ser responsável por até 50% das complicações pós-TC.1 Uma resistência vascular pulmonar elevada (RVP)> 2,5 unidades Wood está associada a um aumento de quase 30% na mortalidade no primeiro mês após o transplante.2 Essa HP associada à IC é considerada o resultado do efeito passivo do aumento da pressão diastólica final do ventrículo esquerdo, juntamente com a vasorreatividade secundária à vasoconstrição e remodelamento pulmonar arterial.3,4 Quando não é reversível com o teste de reatividade (challenge test) ao vasodilatador, a HP tem sido fortemente associada à disfunção ventricular direita, hospitalizações por IC, piora na qualidade de vida e redução da sobrevida.5 As diretrizes da International Society for Heart and Lung Transplantation consideram a presença de HP grave pré-transplante como uma contraindicação relativa ao transplante cardíaco.6 Da mesma forma, a desproporcionalidade entre a necessidade de transplante cardíaco e a reduzida disponibilidade de doadores deve levar a uma seleção ainda mais criteriosa dos potenciais candidatos ao TC e novas tentativas de redução da hipertensão pulmonar pré-TC são necessárias.
Uma das abordagens possíveis para reduzir a HP fixa em pacientes com ICFEr, os inibidores da fosfodiesterase-5, principalmente a sildenafila, são terapias bem estabelecidas e eficazes para pacientes com HP do grupo 1, isoladamente ou em combinação com outras terapias vasodilatadoras.5 Para a HP associada a ICFEr (grupo 2), estudos menores mostraram que a terapia com sildenafila melhorou a capacidade de exercício e a hemodinâmica pulmonar, mas estudos maiores sobre os resultados na ICFEr são escassos.7,8Um desses pequenos estudos randomizou 19 pacientes com ICFEr para uso de sildenafila 50 mg/3x/d versus placebo e também mostrou benefícios hemodinâmicos (diminuição dos níveis da pressão sistólica da artéria pulmonar em 4 semanas) no grupo tratado com sildenafila.9 A redução da RVP também foi demonstrada em um estudo unicêntrico de Pons et al.10 Quinze pacientes com uma RVP >2,5 unidades Wood foram tratados com sildenafila pré-TC com uma alta dose-alvo (109 ± 42 mg/dia) por 163 ± 116 dias. Benefícios importantes nas pressões pulmonares e na mortalidade pós-TC foram comparáveis entre o grupo com HP tratado e o grupo não grave, não tratado10 Em contraste, um ensaio multicêntrico de sildenafila em pacientes com ICFEp não conseguiu determinar os benefícios em relação ao estado clínico ou capacidade de exercício.11 Com base nesses achados preliminares positivos em pacientes com ICFEr, alguns centros de TC já adotaram o uso off-label de sildenafila como terapia de resgate em candidatos a transplante cardíaco selecionados, com HP fixa grave, com o objetivo de atingir um estado favorável ao transplante.7
O estudo12 agrega conhecimentos importantes a esse campo. Mendes et al.,12 compararam o efeito do tratamento com sildenafila pré-TC em 30 pacientes em relação a 205 pacientes com ICFEr não tratados com sildenafila. Esse foi um estudo observacional retrospectivo, unicêntrico, que comparou a hemodinâmica pulmonar e os desfechos clínicos em 1 semana e 1 ano após o TC em pacientes com HP fixa tratados por terapia com sildenafila 20 mg 3x/d a um grupo sem HP que não recebeu nenhum tratamento direcionado à HP. Apesar do desenho não randomizado, as características basais dos pacientes eram semelhantes, exceto pela gravidade da disfunção sistólica e a hemodinâmica da hipertensão pulmonar no grupo tratado com sildenafila. O estudo mostrou uma diminuição importante na pressão sistólica da artéria pulmonar e na resistência vascular pulmonar após uma prescrição de uso de sildenafila por 3 meses (58,9 a 52,8 mmHg e 5,4 a 3,3 unidades de Woods, respectivamente, com p <0,001 para ambas as análises). A melhora da hemodinâmica pulmonar levou a um benefício clínico significativo, o que possibilitou a elegibilidade da candidatura ao TC para aqueles 30 pacientes que foram, a princípio, considerados inelegíveis.
Apesar de haver pequenas diferenças na pressão sistólica da artéria pulmonar logo após o TC (7 dias), não houve diferenças significativas nas pressões pulmonares entre os grupos após 1 ano do transplante cardíaco, o que pode ter um impacto prático em relação a avaliações adicionais para outros pacientes com HP associada à IC na avaliação inicial para terapias avançadas. Resultados semelhantes foram demonstrados em uma pequena coorte de 18 pacientes que foram tratados com sildenafila para reduzir a HP associada à IC em uma tentativa de se tornarem elegíveis para o TC. Groote et al.13 relataram melhora significativa na classe funcional, fração de ejeção ventricular esquerda e parâmetros de teste de exercício cardiopulmonar, bem como uma redução considerável na resistência vascular pulmonar (de 5,3 ± 1,9 para 3,3 1,8 unidades Woods, p = 0,01).13 Outros estudos também demonstraram uma diminuição da pressão pulmonar em pacientes com HP persistente e dispositivos de assistência ventricular esquerda.14 Além disso, a sildenafila parece ser útil na insuficiência ventricular direita aguda e HP nas primeiras 72 horas após o TC em uma pequena série de casos de 13 pacientes.15
Embora tenha havido benefícios substanciais em relação aos parâmetros hemodinâmicos pulmonares, a mortalidade numericamente maior evidenciada no primeiro ano estava ligada à gravidade inicial da HP e deve ser levada em consideração no processo de tomada de decisão em relação à candidatura ao transplante cardíaco durante a avaliação inicial.
As limitações deste estudo estão relacionadas ao desenho metodológico observacional, retrospectivo, unicêntrico e ao número limitado de pacientes com HP incluídos. Além disso, a função ventricular direita não foi medida durante o estudo, o que pode ter prejudicado a interpretação hemodinâmica antes e após o tratamento com sildenafila. Embora este estudo provavelmente não tenha poder suficiente para tirar conclusões definitivas e validade externa, ele representa a maior coorte de pacientes com ICFEr grave tratados com sildenafila para iniciar um processo de TC.
Em conclusão, o tratamento com sildenafila em pacientes com ICFEr com HP grave possibilitou um período pós-operatório bem-sucedido em pacientes inicialmente considerados inelegíveis para TC, com melhora na resistência vascular pulmonar, mas sobrevida ligeiramente inferior 1 ano após o TC. Este é um achado importante para a prática clínica, pois pode indicar terapias avançadas inicialmente contraindicadas para candidatos a TC com HP grave associada à ICFEr, além de promover benefícios durante o período pré-TC.
Footnotes
Minieditorial referente ao artigo: Resultados Clínicos e Hemodinâmicos de Longo Prazo após o Transplante de Coração em Pacientes Pré-Tratados com Sildenafil
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