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editorial
. 2020 Aug 19;115(2):161–162. [Article in Portuguese] doi: 10.36660/abc.20200793
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Epidemiologia das Doenças Cardiovasculares no Brasil: A Verdade Escondida nos Números

Carisi Anne Polanczyk 1,2,3
PMCID: PMC8384285  PMID: 32876178

Segundo a Agenda 2030 da Organização Mundial de Saúde para o Desenvolvimento Sustentável, existe um comprometimento dos países-membros para uma redução de 30% na mortalidade prematura por doenças não transmissíveis, particularmente as doenças cardiovasculares (DCV) (cardiopatia isquêmica e acidente vascular cerebral — AVC), câncer, doença respiratória e diabetes.1 Essas condições são responsáveis por aproximadamente 41 milhões de mortes por ano, equivalente a 71% das mortes no mundo.2 Para direcionar estratégias de enfrentamento dessas doenças, informações provenientes de sistemas confiáveis, transparentes e reprodutíveis são essenciais. A análise de tendências de mortalidade é crucial para o desenvolvimento efetivo de políticas de saúde, seguridade social, investimentos, entre outras.

A iniciativa dos estudos do Global Burden of Disease (GBD) vem ao encontro dessa agenda, tendo como objetivo aprimorar o entendimento das doenças através da análise de dados disponíveis sobre a incidência, prevalência e mortalidade de modo consistente, atualizado, global, em âmbito regional e nacional.3 Ao longo dos últimos anos, esta proposta metodológica trouxe informações práticas para o enfrentamento das doenças ao redor do mundo, vencendo desafios inerentes à metodologia, particularmente a heterogeneidade dos registros e dados oriundos dos diversos países. 4 , 5 Através de dados provenientes de múltiplas fontes (registros de saúde, coortes e ensaios prospectivos, dados administrativos, análise verbal, entre outros) e aplicando modelos estatísticos complexos, a iniciativa tem fornecido dados por sexo, idade e país, de mais de 310 doenças e agravos, com aprimoramento metodológico constante. 6

A importância dessas novas métricas são apontadas no artigo de Malta et al.7 Os autores compararam séries históricas de mortalidade por DCV entre 2000 e 2017, provenientes de três estimativas: dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) brutos, corrigidos para causas mal definidas e sub-registros e aquelas aplicadas pelo GBD. Ao longo desse período, em todas as bases, houve uma redução da mortalidade por DCV no Brasil, de 27% no SIM bruto e 28% pelo GBD. Entretanto, subanálises por unidades da federação mostraram como os dados do SIM bruto podem ser equivocados. Segundo registro do SIM, em 12 estados, houve aumento do número de mortes atribuídas às DCV, enquanto pelas estimativas do GBD, em todos estados, houve redução da mortalidade por essas doenças. Fato este relevante para o monitoramento das ações de prevenção e controle pelos gestores e pela sociedade. Entretanto, o ponto a ser destacado é ainda o percentual elevado em alguns estados de preenchimento inadequado de registros de óbitos, causas mal definidas, sendo, em 2017, 42% ainda classificados como códigos errados ( garbage code ).

A metodologia empregada pelo GBD visa padronizar internacionalmente as causas de morte, que na sua origem são estabelecidas em um registro único de um médico. Devido à ampla variabilidade nesses aspectos, tratamento com algoritmos e modelagem permitem que uma proporção de causas de morte mal definidas ou classificadas como outras sejam realocadas para causas mais prováveis.8 Ponto sensível da metodologia é a inferência para alguns códigos, denominados “ garbage codes ”. Alguns são intuitivos, como causas mal definidas ou sintomas; outros são sujeitos a interpretação e arbitrariedade. Por exemplo, insuficiência cardíaca é compreendida como causa intermediária de morte, e as mortes atribuídas a esse código são reclassificadas através de modelo de regressão considerando idade, sexo e localização. A precisão e acurácia desses ajustes a cada realidade é algo a ser explorado. Certamente, a metodologia do GBD nos traz luz para desvendar os casos obscuros de registro. Entretanto, o lado obscuro existe e precisa ser continuamente trabalhado. Para confiarmos mais nessas estimativas, devemos buscar melhor qualidade no registro de base original.4 , 8

O Brasil é um país de dimensões continentais, com uma das maiores desigualdades socioeconômicas, uma situação que inevitavelmente está relacionada com maior mortalidade por doenças não transmissíveis, especialmente DCV.9 O envelhecimento da população, globalização, urbanização com aumento da obesidade e inatividade física são fatores determinantes desses números. Nas últimas décadas, felizmente muito foi alcançado e reduzimos de modo expressivo a mortalidade por essas condições em todos os estados. Entretanto, sabemos que há muito a ser feito; existem desigualdades imensas nesses números, parte expressiva relacionada a fatores como baixo nível de estrutura e recursos na saúde, baixo nível socioeconômico e cultural da população. O mais preocupante é saber que em condições de recursos escassos, os custos com tratamento das DCV acabam drenando mais ainda os recursos existentes, gerando um círculo vicioso de mais pobreza e atraso para o crescimento.

Nosso desafio é como levar esses dados para além da academia e dos cientistas. Como fazer que as estimativas de prevalência, incidência e fatores de risco das doenças cardiovasculares sejam empregadas por gestores e políticos para tomada de decisão?4 , 7 O primeiro passo, dado por Malta et al.,7 é transformar registros existentes em informações relevantes e válidas que possam nortear ações objetivas de controle das DCV. A aceitação de que registros brutos locais são insuficientes para este propósito é extremamente relevante. Por outro lado, é fundamental que estes dados sejam empregados por gestores, tomadores de decisão, organismos não governamentais e certamente pela comunidade médica, para entender melhor as doenças da nossa população e reavaliar esforços, identificar ações prioritárias para combate e melhorias para a saúde cardiovascular no Brasil.

Footnotes

Minieditorial referente ao artigo: Mortalidade por Doenças Cardiovasculares Segundo o Sistema de Informação sobre Mortalidade e as Estimativas do Estudo Carga Global de Doenças no Brasil, 2000-2017

Referências

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Arq Bras Cardiol. 2020 Aug 19;115(2):161–162. [Article in English]

Epidemiology of Cardiovascular Diseases in Brazil: The Truth Hidden in the Numbers

Carisi Anne Polanczyk 1,2,3

According to the 2030 Agenda of the World Health Organization for Sustainable Development, member states are committed to a 30% reduction in premature mortality from non-communicable diseases, particularly cardiovascular diseases (CVD) (ischemic cardiomyopathy and stroke), cancer, respiratory diseases and diabetes.1 These conditions account for about 41 million deaths per year, i.e., 71% of deaths worldwide.2 To direct strategies for to prevent and treat these with these diseases, information from reliable, transparent and reproducible systems is essential. The analysis of mortality trends is key for the effective development of health, social security, investment and other policies.

The Global Burden of Disease (GBD) studies initiative is in line with this agenda, as it aims to improve understanding of diseases through the analysis of data on incidence, prevalence and mortality in a consistent, updated and global manner, both at a regional level and at a national level.3 Over the past few years, this methodological proposal has brought practical information for reducing these diseases around the world, overcoming challenges regarding methodology, particularly the heterogeneity of records and data from different countries.4 , 5 Through data from multiple sources (health records, cohorts and prospective trials, administrative data, verbal analysis and others) and applying complex statistical models, the initiative has provided data by sex, age and country, to more than 310 diseases and conditions, with continuous methodological improvement.6

The importance of these new metrics is pointed out in the article by Malta et al.7 The authors compared historical series of CVD mortality between 2000 and 2017, based on three estimates: gross data from the Mortality Information System (SIM), corrected for ill-defined causes and underreporting, and those applied by the GBD. Over this period, on all databases, there was a reduction in mortality from CVD mortality in Brazil, by 27% in the gross SIM and 28% by the GBD. However, sub-analyses by state have shown how inaccurate the SIM data can be. According to the SIM records, in 12 states, there was an increase in the number of deaths from CVD, while according to the GBD estimates, in all states, there was a reduction in mortality from these diseases. This fact is relevant for the monitoring of prevention and control actions by managers and society. However, a fact to be pointed out is the high percentage, in some states, of death records and ill-defined causes improperly filled out, and, in 2017, 42% are still classified as garbage codes.

The methodology used by the GBD aims to internationally standardize the causes of death, which, in their origin, are established in a single medical record. Due to the wide variability in these aspects, treatment with algorithms and modeling allows a proportion of ill-defined deaths or deaths classified as other causes to be reallocated to more probable causes.8 A sensitive point of the methodology is the inference for some codes, called “garbage codes”. Some are intuitive, like ill-defined causes or symptoms; others are subject to interpretation and discretion. For example, heart failure is understood as an intermediate cause of death, and deaths attributed to this code are reclassified using a regression model considering age, sex and location. The precision and accuracy of these adjustments to each reality is something to be explored. Certainly, the GBD methodology brings us light to unveil the obscure cases of records. However, the dark side exists and needs to be worked on continuously. To rely more on these estimates, we must seek better quality in the original baseline record.4 , 8

Brazil is a country of continental dimensions, with one of the greatest socioeconomic inequalities, a situation that is inevitably related to higher mortality from non-communicable diseases, especially CVD.9 Population aging, globalization, urbanization with increased obesity and physical inactivity levels are determining factors in these numbers. Fortunately, much has been achieved in the past few decades and we have significantly reduced mortality from these conditions in all states. However, we know that there is much to be done; there are huge inequalities in these numbers, mostly related to factors such as low level of structure and resources in health, and low socioeconomic and cultural level of the population. The most worrying thing is to know that in conditions of scarce resources, the costs of treating CVD end up depleting the existing resources even more, generating a vicious circle of more poverty and delayed growth.

Our challenge is taking this data beyond academia and scientists. How can the estimates of prevalence, incidence and risk factors for cardiovascular diseases be used by managers and politicians in their decision-making efforts?4 , 7 The first step, taken by Malta et al.,7 is to transform existing records into relevant and valid information that can guide objective actions to control CVD. Accepting that local gross records are insufficient for this purpose is extremely relevant. On the other hand, it is essential that these data be used by managers, decision makers, non-governmental organizations and certainly by the medical community, to better understand the diseases of our population and to reassess efforts, identify priority actions to combat and improve cardiovascular health in Brazil.

Footnotes

Short Editorial related to the article: Cardiovascular Disease Mortality According to the Brazilian Information System on Mortality and the Global Burden of Disease Study Estimates in Brazil, 2000-2017


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