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editorial
. 2020 Jul 28;115(1):29–30. [Article in Portuguese] doi: 10.36660/abc.20200345
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Tratamento Direcionado ao Sistema Renina-Angiotensina-Aldosterona na Obesidade

Ariane Vieira Scarlatelli Macedo 1,2
PMCID: PMC8384313  PMID: 32785498

Minieditorial referente ao artigo: Bloqueio de Receptores AT1 Melhora o Desempenho Funcional Miocárdico na Obesidade

A obesidade tem aumentado em todo o mundo, levando a um crescimento acentuado da prevalência de doenças cardiovasculares (DCV).1 A obesidade, principalmente a classificada como grave, provoca mudanças hemodinâmicas que contribuem para alterar a morfologia cardíaca, podendo predispor ao comprometimento da função ventricular e à insuficiência cardíaca. Essas mudanças incluem um estado de alto débito cardíaco na maioria dos casos, além de hipertrofia ventricular esquerda (HVE) e disfunção diastólica do ventrículo esquerdo (VE). Estudos experimentais e algumas investigações em humanos sugerem que alterações metabólicas e neuro-hormonais específicas geralmente associadas com a obesidade podem resultar em mudanças na estrutura e função cardíaca.2

Adipócitos são uma rica fonte de angiotensinogênio, angiotensina I e enzima conversora de angiotensina, contribuindo para a produção de angiotensina II. A geração desses hormônios é aditiva aos componentes do sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA) produzidos sistemicamente.3 A obesidade é caracterizada pela ativação excessiva do SRAA. Esta ativação tem muitas implicações relativas à estrutura e à função cardíaca. A mais crítica é o efeito vasoconstritor da angiotensina II, que causa o desenvolvimento da hipertensão arterial sistêmica (HAS) em pacientes obesos, além de induzir o aumento da pós-carga do VE em indivíduos normotensos obesos.4

A angiotensina II atua como um fator de crescimento que afeta tanto o músculo liso vascular quanto o miocárdio. Portanto, a ativação excessiva do SRAA influencia o desenvolvimento de hipertrofia miocárdica e do músculo liso vascular.2 Quadros relacionados à ativação do SRAA têm sido associadas com doenças metabólicas e do coração. A ativação do SRAA também parece promover resistência à insulina e hiperinsulinemia por meio de vários mecanismos. Este cenário pode levar a um aumento da atividade do sistema nervoso simpático (SNS), contribuindo ainda mais para o desenvolvimento da HVE.5 Inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA) e bloqueadores do receptor de angiotensina II (BRA) são frequentemente usados para tratar a hipertensão associada à obesidade.

Em um experimento anterior, a intervenção com BRA (Losartan) resultou na inibição dos mecanismos moleculares de resistência à insulina no miocárdio, melhorando a contratilidade cardíaca. Recentemente, o uso de bloqueadores do receptor tipo 1 da angiotensina II (AT1) causou melhora da função mitocondrial em ratos obesos resistentes à insulina em um modelo experimental.6

Não está claro se o tratamento direcionado ao SRAA promove uma melhora mais significativa dos desfechos cardiovasculares em pacientes normotensos obesos em relação aos magros.

Nesta edição da ABC, Oliveira Junior, et al.,7 apresentam os resultados de um estudo em animais que avaliou a influência de bloqueadores de AT1 na morfologia e desempenho cardíaco por meio da análise in vitro do músculo papilar de ratos com obesidade induzida por dieta hiperlipídica. Eles hipotetizaram que a obesidade pode estar associada a alterações no desempenho funcional do miocárdio, sustentada sob estímulos diferentes, e que essas respostas podem ser atenuadas pelo antagonismo de receptores AT1. Ratos Wistar foram submetidos a controle de kcal/g ou dieta hiperlipídica por 20 semanas. Quatro grupos foram avaliados: Controle (CO), Obesos (OB), Controle com Losartan (CL) e Obesos com Losartan (OL). Os grupos CL e OL receberam Losartan (30 mg/kg/dia). Posteriormente, foram analisadas a composição corporal, a pressão arterial sistólica (PAS) e as variáveis ecocardiográficas. Os autores observaram que a obesidade estava associada com alterações de PAS e hipertrofia cardíaca. Eles também identificaram mudanças no desempenho sistólico e disfunção do músculo papilar em ratos obesos. A intervenção com o antagonista do receptor AT1 reduziu a maioria desses efeitos. Os resultados deste elegante estudo experimental reforçam a importância de intervenções cardiovasculares focadas em pacientes obesos.

Uma meta-análise de 28 ensaios clínicos randomizados envolvendo 2.403 pacientes com HAS (faixa etária média de 44–67 anos) mostrou que a regressão da HVE com medicamentos anti-hipertensivos foi maior nos grupos sobrepeso e obesidade em comparação aos indivíduos com peso normal. Mesmo com menor redução da PAS, a HVE melhorou em pacientes obesos e com sobrepeso em relação ao grupo com peso normal (p<0,001) inicial em todos os grupos). O tratamento com inibidores do sistema renina-angiotensina foi o mais eficaz na redução da HVE em indivíduos obesos e com sobrepeso (p<0,001).6

A obesidade é uma doença crônica e complexa baseada em adiposidade, cujo controle é direcionado tanto às complicações relacionadas ao peso quanto à adiposidade para melhorar a saúde geral. A perda de peso voluntária e substancial pode reverter muitas das alterações hemodinâmicas, neuro-hormonais e metabólicas associadas à obesidade.8 Intervenções médicas, como o uso de BRA, juntamente com a perda de peso, podem resultar em reversão do remodelamento cardíaco e melhorar a função ventricular e a qualidade de vida de pacientes obesos.9

Referências

  • 1.1. Ortega FB, Lavie CJ, Blair SN. Obesity and cardiovascular disease. Circ Res. 2016;118(11):1752-70. [DOI] [PubMed]
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  • 8.8. Alpert MA, Karthikevan K, Abdullah O, Ghadban R. Obesity and cardiac remodeling in adults: mechanisms and clinical implications. Prog Cardiovasc Dis. 2018;61(2):114-23. [DOI] [PubMed]
  • 9.9. Alpert MA, Omran J, Mehra A, Ardhanari S. Impact of obesity and weight loss on cardiac performance and morphology in adults. Prog Cardiovasc Dis. 2014;56(4):391–400. [DOI] [PubMed]
Arq Bras Cardiol. 2020 Jul 28;115(1):29–30. [Article in English]

Targeting the Renin-Angiotensin-Aldosterone System in Obesity

Ariane Vieira Scarlatelli Macedo 1,2

Short Editorial related to the article: AT1Receptor Blockade Improves Myocardial Functional Performance in Obesity

Obesity has been increasing across the globe and markedly raising the prevalence of cardiovascular diseases (CVD).1 Obesity, particularly severe obesity, causes hemodynamic alterations that contribute to changing cardiac morphology, which may predispose to impaired ventricular function and heart failure. These alterations include a high cardiac output state in most cases, as well as left ventricular hypertrophy (LVH) and left ventricular (LV) diastolic dysfunction. Experimental studies and some investigations on humans propose that specific neurohormonal and metabolic alterations generally associated with obesity may lead to changes in cardiac structure and function.2

Adipocytes are a rich source of angiotensinogen, angiotensin I, and angiotensin-converting enzyme, contributing to the production of angiotensin II. The generation of these hormones is additive to systemically-produced components of the renin-angiotensin-aldosterone system (RAAS).3 Obesity is characterized by enhanced RAAS activation. Such activation has many implications concerning cardiac structure and function. The most critical is the vasoconstrictive effect of angiotensin II, which results in the development of hypertension (HTN) in obese patients, in addition to inducing an increase in LV afterload in normotensive-obese patients.4

Angiotensin II is a growth factor that affects both vascular smooth muscle and myocardium. Therefore, enhanced RAAS activation influences the development of vascular smooth muscle and myocardial hypertrophy.2 Conditions related to RAAS activation have been associated with metabolic disorders and heart diseases. RAAS activation also seems to promote insulin resistance and hyperinsulinemia by various mechanisms. This scenario may lead to increased sympathetic nervous system (SNS) activity, further contributing to the development of LVH.5 Angiotensin-converting enzyme inhibitors (ACEI) and angiotensin II receptor blockers (ARB) are commonly used to treat obesity hypertension.

In a previous experiment, intervention with ARB (Losartan) resulted in the inhibition of molecular mechanisms of myocardial insulin resistance, improving heart contractility. Recently, the use of angiotensin II receptor type 1 (AT1) blockade resulted in improved mitochondrial function in obese insulin-resistant rats in an experimental model.6

Whether targeting the RAAS in normotensive obese patients improves cardiovascular outcomes to a greater extent than in normotensive lean patients is uncertain.

In this issue of ABC, Silva-Junior and co-authors7 present the results of their animal study assessing the influence of AT1 blockade on cardiac morphology and performance using in vitro papillary muscle analysis in rats with high-fat diet-induced obesity. They hypothesize that obesity might be associated with changes in myocardial functional performance, sustained under different stimuli, and that these responses could be attenuated by AT1 receptor antagonism. Wistar rats were submitted to kcal/g control or high-fat diet for 20 weeks. Four groups were assessed: Control (CO), Obese (OB), Control Losartan (CL), and Obese Losartan (OL). The CL and OL groups received Losartan (30 mg/kg/day). Afterward, body composition, systolic blood pressure (SBP), and echocardiographic variables were analyzed. The authors found that obesity was associated with SBP changes and cardiac hypertrophy. They also identified changes in systolic performance and disorders of papillary muscle function in obese rats. The AT1 receptor antagonist intervention reduced most of these effects.

The results of this elegant experimental study reinforce the importance of cardiovascular interventions focused on obese patients.

A meta-analysis of 28 randomized clinical trials comprising 2,403 patients with HTN (mean age range 44–67 years) showed that LVH regression with antihypertensive drugs was greater in the overweight and obesity groups than in normal-weight subjects. Even with a smaller reduction in SBP, LVH improved in obese and overweight groups compared to the normal-weight group (p<0.001 at baseline in all groups). Renin-angiotensin system inhibitor therapy was the most effective treatment for reducing LVH in overweight and obese patients (p<0.001).6

Obesity is a complex adiposity-based chronic disease, whose management targets both weight-related complications and adiposity to improve overall health. Substantial voluntary weight loss can reverse many of the hemodynamic, neurohormonal, and metabolic changes associated with obesity.8 Medical interventions, such as ARB, along with weight loss, may result in reverse cardiac remodeling and improve the ventricular function and the quality of life in obese patients.9


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