Este trabalho apresenta uma importante escala, já em versão brasileira, com validação em nossa população, que permite avaliar o nível de ansiedade relacionada ao cardioversor-desfibrilador implantável (CDI) e aos choques aplicados pelo dispositivo.1
Esta escala, como bem ressaltada no trabalho de Silva et al.,1 não foi idealizada para avaliar aspectos da adaptação do paciente com o seu CDI ou os impactos desse dispositivo na qualidade de vida do indivíduo, existindo outra escala apropriada para este fim, como a Florida Patient Acceptance Survey (FPAS).2
Este artigo sinaliza a importância da valorização dos aspectos psicossociais dos portadores de CDI, muitas vezes, relevados a planos relevados a planos secundários. Alguns artigos já demonstraram o impacto negativo que o CDI pode trazer na vida dos pacientes, mesmo sem a ocorrência de terapias.3-5
Entretanto, sabe-se do indiscutível benefício que os CDI promovem em diversos contextos clínicos.6 Portanto, uma abordagem psicossocial deveria obrigatoriamente fazer parte dos ambulatórios de arritmia e marca-passo, tendo agora disponível em nosso meio uma ferramenta para tal análise.
Manzoni et al.7 analisaram 60 estudos e avaliaram o nível de ansiedade, depressão, qualidade de vida relacionada à saúde, síndrome do estresse pós-traumático e transtornos psiquiátricos em portadores de CDI. Eles concluíram que há uma grande heterogeneidade metodológica nos testes psicológicos utilizados.
Isto tem dificultado a análise dos dados e, consequentemente, as estratégias para a diminuição desse impacto. Vários fatores podem influenciar o grau de ansiedade e muitos não foram abordados nesses estudos, como as diferentes características demográficas, as condições clínica e psicológica pré-implante e o número de choques, se apropriados ou não.7
Uma subanálise do estudo Multicenter Automatic Defibrillator Implantation Trial-Reduce Inappropriate Therapy (MADIT-RIT), que utilizou a escala Florida Shock Anxiety Scale (FSAS), concluiu que 2 ou mais choques, apropriados ou inapropriados, e o maior número de episódios de anti-tachycardia pacing (ATP) inapropriados estariam associados a maior grau de ansiedade, em um acompanhamento de 9 meses. Por essa análise, sugeriu-se que alterações na programação do CDI podem alterar o grau de ansiedade ao diminuir o número de choques e ATP inapropriados.8
Outro tópico relevante refere-se aos cuidados com as programações do CDI. As sociedades da especialidade têm publicações sugerindo a forma ideal de programação, conforme cada fabricante. Essas recomendações devem ser implementadas tentando-se minimizar as terapias de choque, que podem elevar o grau de ansiedade e estar relacionadas a pior prognóstico.9,10
A valorização das terapias com ATP (estimulação antitaquicardia), o aumento no tempo ou a programação de um maior número de batimentos para a detecção das arritmias ventriculares sustentadas são extremamente importantes.
A programação do CDI em pacientes com com cardiopatia chagásica (CCH) deve ser diferente da realizada para outras patologias. Na CCH, observa-se um maior número de terapias, em diferentes zonas de detecção, com repercussões clínicas distintas, portanto, merecendo uma abordagem mais individualizada e especializada em centros de referência.
A correta programação das funções de discriminação das arritmias ventriculares, em relação às arritmias supraventriculares, ou mesmo para a identificação de ruídos que possam deflagrar terapias inapropriadas, merece especial atenção. Sabe-se que existem diversos fabricantes com particularidades de programações, mas todas devem ser de conhecimento obrigatório do especialista. A própria escolha do dispositivo com maior duração de bateria, evitando-se trocas precoces, também é um fator importante de proteção psicossocial.
Por fim, parabenizamos os autores pela importante contribuição ao tema no cenário nacional e pelo rigor científico adotado. A implementação da escala FSAS, traduzida e validada por Silva et al., para análise do grau de ansiedade em portadores de CDI auxiliará no tratamento psicossocial destes pacientes.
Footnotes
Minieditorial referente ao artigo: Evidências de Validade da Versão Brasileira da Florida Shock Anxiety Scale para Portadores de Cardioversor-Desfibrilador Implantável
Referências
- 1.1. Silva KR, Costa R, Melo SRGO et al. Evidências de validade da versão brasileira da Florida Shock Anxiety Scale para portadores de cardioversor-desfibrilador implantável. Arq Bras Cardiol. 2020; 114(5):764-772. [DOI] [PMC free article] [PubMed]
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