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editorial
. 2021 Aug 9;117(2):341–342. [Article in Portuguese] doi: 10.36660/abc.20210589
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Sucessos e Desafios no Enfrentamento das Doenças Cardiovasculares no Brasil: Viver Mais e Melhor

Editors: Bruno Fernandes Galdino1, David Costa Peixoto1, Ana Carolina Alves2, Bruno Ramos Nascimento1,3,, Luisa Campos Caldeira Brant1,3
PMCID: PMC8395809  PMID: 34495230

As doenças cardiovasculares (DCV) e o câncer representam as maiores causas de morte no Brasil e no mundo. Tendo em vista tamanha relevância epidemiológica, o artigo “Taxas de Mortalidade por Doenças Cardiovasculares e Câncer na População Brasileira com Idade entre 35 e 74 Anos, 1996-2017”,1 por meio da análise dos dados de mortalidade das Estatísticas Vitais do DATASUS (Sistema de Informação de Mortalidade – SIM), apresenta o perfil de mortalidade por esses grupos de doenças, discute sua evolução entre 1996 e 2017, e estima a contribuição futura dessas causas de morte, caso as tendências sejam mantidas. Os principais achados incluem a maior contribuição atual das DCV para a mortalidade no Brasil, porém com redução gradual de suas taxas padronizadas por idade. Esta tendência não ocorre para as taxas de mortalidade por câncer – que permanecem estáveis – de forma que em poucos anos o câncer se tornará a principal causa de morte no país.

As DCV e o câncer, apesar de possuírem diferentes etiopatogenias, compartilham fatores de risco (FR), como tabagismo, obesidade, diabetes, consumo excessivo de álcool e baixo nível socioeconômico. Dessa forma, a manutenção da saúde cardiovascular ideal é inversamente proporcional à incidência de câncer.2 Assim, torna-se importante entender as tendências de exposição da população a esses FRs comuns ao longo das últimas décadas, quando as mudanças no estilo de vida derivadas da urbanização e o envelhecimento populacional contribuíram para a incidência e mortalidade elevadas de ambas as doenças.3 Com essas informações em mente, Mansur e Favarato analisaram os dados de mortalidade de homens e mulheres por todas as causas, por DCV, doenças isquêmicas do coração (DIC), doenças cerebrovasculares (DCbV) e câncer neste período de 21 anos.

As taxas de mortalidade proporcionais por DCV (30%) e câncer (20%) foram responsáveis por metade das mortes entre 1996 e 2017. Nesse período, a taxa de mortalidade padronizada para idade por DCV teve redução de 38%, dado que está em consonância com as estimativas do estudo Global Burden of Disease (GBD) 2017 publicados por Malta et al.,4 que demonstrou uma diminuição de 34,8% de 2000 a 2017. O estudo GBD tenta, ao processar os dados primários de mortalidade do país através de modelos que incluem correções para subnotificações e redistribuição de códigos garbage, minimizar as limitações do SIM - como as disparidades na cobertura e na proporção de causas mal definidas de óbito, historicamente maior nos estados menos desenvolvidos.4

Os autores também observaram que as taxas de mortalidade por DCV padronizada por idade são menores entre as mulheres e que a diminuição da mortalidade foi mais expressiva nesse grupo. Martins et al.,5 frente a achados semelhantes, atribuiu ambas as tendências à maior adesão das mulheres ao rastreamento e prevenção dessas doenças na atenção primária à saúde (APS), além da proteção hormonal que sabidamente retarda a mortalidade por DCV.5 DIC e DCbV foram responsáveis por 57% das mortes por DCV, com as taxas de mortalidade por DCbV mostrando redução mais acentuada, possivelmente devido ao melhor reconhecimento, tratamento e controle da hipertensão arterial sistêmica (HAS) nesse período,6 fator de risco mais fortemente relacionado à DCbV do que a DIC – esta mais associada a fatores metabólicos do que a DCbV, os quais tiveram tendências desfavoráveis no período.7,8

O padrão descendente da taxa de mortalidade por DCV tanto em homens quanto em mulheres no Brasil está intrinsecamente relacionado à implantação de políticas públicas para controle dos FR – como aquelas voltadas para o controle do tabagismo ou que permitiram acesso ao tratamento da HAS – da implementação do sistema de atendimento de urgências e emergências em 2003, além de melhorias e expansão da rede de Atenção Básica no país.6 Tais medidas promovem hábitos saudáveis, permitem o diagnóstico e tratamento precoce das DCV agudas e crônicas, além do controle de seus determinantes – pilares do enfrentamento da DCV. Apesar desse relativo sucesso, é importante salientar que as taxas de mortalidade por DCV ainda são altas, como citam Mansur e Favarato,1 e o país ainda tem grandes desafios: a redução desigual das taxas de mortalidade, menor nos estados brasileiros menos desenvolvidos e entre os homens, o crescente número de mortes pelo crescimento e envelhecimento populacional, além do aumento da prevalência de obesidade e suas consequências metabólicas adversas.6,8

Em relação ao câncer, o estudo observou que não ocorreram variações significativas na taxa de mortalidade padronizada para idade na população geral entre 1996 e 2017. Isso aconteceu devido ao aumento de 5,8% da mortalidade em mulheres (Variação percentual anual média [VPAM]=0,3%, p=0,2), apesar da redução significativa de 3,7% entre homens (VPAM=-0,1%, p<0,001). É importante notar que, entre as regiões do país, há grandes diferenças nos padrões de mortalidade. Nas regiões Norte e Nordeste, por exemplo, são mais comuns neoplasias relacionadas a infecções – característica comum em países de baixa e média renda – enquanto que as outras regiões do Brasil apresentam padrão semelhante ao de países de alta renda, com cânceres associados ao envelhecimento e a condições crônicas.9,10 Além disso, as regiões Norte e Nordeste apresentam tendências de aumento na mortalidade por câncer até 2030, enquanto que nas outras regiões, as tendências são estáveis ou de diminuição,11 revelando como a maior mortalidade, independente da causa, está intimamente relacionada à pobreza, que atua desfavoravelmente em várias frentes: educacionais, nutricionais, e de acesso a diagnóstico e tratamento.10

Diante do exposto, o aumento proporcional da mortalidade por câncer é esperado na medida em que a mortalidade por DCV reduz, já que as causas de morte são competitivas. Portanto, sendo a morte inexorável, vale destacar outro dado revelado por Mansur e Favarato: a redução mais expressiva da mortalidade por todas as causas e, principalmente por DCV, nos grupos etários mais jovens, revelando uma diminuição da mortalidade prematura no Brasil nas últimas décadas,11 um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável propostos pela Organização Mundial de Saúde para 2030.12 Em suma, os dados do presente estudo mostram avanços, mas reforçam que desafios perenes e novos requerem a implementação e renovação de políticas públicas que promovam o enfrentamento das DCV e do câncer como prioridades no cenário da saúde no país, para que os brasileiros possam viver mais e melhor.

Footnotes

Minieditorial referente ao artigo: Taxas de Mortalidade por Doenças Cardiovasculares e Câncer na População Brasileira com Idade entre 35 e 74 Anos, 1996-2017

Referências

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Arq Bras Cardiol. 2021 Aug 9;117(2):341–342. [Article in English]

Successes and Challenges in the Management of Cardiovascular Disease in Brazil: Living Longer and Better

Editors: Bruno Fernandes Galdino1, David Costa Peixoto1, Ana Carolina Alves2, Bruno Ramos Nascimento1,3,, Luisa Campos Caldeira Brant1,3

Cardiovascular diseases (CVDs) and cancer are the main causes of death in Brazil and worldwide. Considering this epidemiological relevance, the article “Mortality Rates from Cardiovascular Diseases and Cancer in the Brazilian Population aged 35 to 74 Years, 1996-2017”,1 through the analysis of mortality data from the DATASUS Vital Statistics (Mortality Information System – SIM), depicts the mortality profile of these groups of diseases, discusses their evolution between 1996 and 2017, and estimates the future contribution of these causes of death, if the trends are maintained. The main findings include the greater current contribution of CVDs to mortality in Brazil, but with a gradual reduction of their age-standardized rates. This trend did not occur for cancer mortality rates – which remain stable – so that, in a few years, cancer will become the main cause of death in the country.

CVDs and cancer, despite having different etiopathogeneses, share risk factors (RF), such as smoking, obesity, diabetes, excessive alcohol consumption and low socioeconomic status. Therefore, maintaining an optimal cardiovascular health is inversely proportional to the incidence of cancer.2 Thus, it is important to understand the population exposure trends to these common RFs over the last decades, when lifestyle changes resulting from urbanization and population aging contributed to the high incidence and mortality of both diseases.3 With this information in mind, Mansur and Favarato analyzed mortality data from all causes for men and women, CVD, ischemic heart disease (IHD), cerebrovascular disease (CbVD) and cancer over this 21-year period.

Proportional mortality rates from CVD (30%) and cancer (20%) accounted for half of the deaths between 1996 and 2017. During this period, the age-standardized mortality rate from CVD decreased by 38%, which is in line with the estimates of the Global Burden of Disease 2017 study published by Malta et al.,4 which showed a decrease of 34.8% from 2000 to 2017. The GBD study tries, when processing the country's primary mortality data through models that include corrections for underreporting and redistribution of garbage codes, to minimize the limitations of SIM – such as disparities in coverage and in the proportion of ill-defined causes of death, historically higher in less developed states.4

The authors also observed that age-standardized CVD mortality rates are lower among women and that the decrease in mortality was more significant in this group. Martins et al.5 considering similar findings, attributed both trends to women's greater adherence to screening and prevention of these diseases in primary health care (PHC), in addition to the hormonal protection that is known to delay mortality from CVD among women.5

IHD and CbVD were responsible for 57% of CVD deaths, with CbVD mortality rates showing a more pronounced reduction, possibly due to better identification, management and control of systemic arterial hypertension (SAH) in this period,6 a risk factor more strongly related to CbVD than IHD – that is more associated with metabolic factors than CbVD, which showed unfavorable trends in the period.7,8

The downward pattern of CVD mortality rate in both men and women in Brazil is intrinsically related to the implementation of public policies for the control of RFs – such as those aimed at smoking control or those allowing access to SAH treatment – the implementation of urgent and emergency care system in 2003, as well as improvements and expansion of the Primary Care network in the country.6 These measures promote healthy habits, allow for the early diagnosis and treatment of acute and chronic CVDs, in addition to the control of its determinants – the pillars of CVD treatment. Despite this relative success, it is important to note that CVD mortality rates are still high, as mentioned by Mansur and Favarato,1 and the country still faces major challenges: the uneven reduction in mortality rates, which is lower in less developed Brazilian states and among men, the growing number of deaths due to population growth and aging, in addition to the increased prevalence of obesity and its adverse metabolic consequences.6,8

Regarding cancer, the study observed that there were no significant variations in the age-standardized mortality rate in the general population between 1996 and 2017. This occurred due to the 5.8% increase in mortality among women (Mean Annual Percentage Change [MAPC] =0.3%, p=0.2), despite the significant reduction of 3.7% among men (MAPC=-0.1%, p<0.001). It is important to note that, across regions of the country, large differences in mortality patterns are observed. In the North and Northeast regions, for instance, infection-related neoplasms are more usual – a common characteristic in low- and middle-income countries – while other regions of Brazil show a pattern similar to that of high-income countries, with cancer associated with aging and to chronic conditions.9,10 Additionally, the North and Northeast regions show increasing trends in cancer mortality until 2030, while the trends are stable or decreasing in the other regions,11 showing how higher mortality, regardless of the cause, is closely related to poverty, which acts unfavorably on several fronts: educational, nutritional, and regarding access to diagnosis and treatment.10

Given the abovementioned facts, a proportional increase in mortality from cancer is expected as the mortality from CVD decreases, since the causes of death are competitive. Therefore, since death is unavoidable, it is worth highlighting other information disclosed by Mansur and Favarato: the more significant reduction in mortality from all causes and, especially, from CVDs, in the younger age groups, disclosing a decrease in premature mortality in Brazil in recent decades,11 one of the Sustainable Development Goals proposed by the World Health Organization for 2030.12

In short, the data from the present study show advances, but reinforce that perennial and new challenges require the implementation and renewal of public policies that promote the fight against CVDs and cancer as priorities in the health scenario in the country, so that Brazilians can live longer and better.

Footnotes

Short Editorial related to the article: Cardiovascular and Cancer Death Rates in the Brazilian Population Aged 35 to 74 Years, 1996-2017


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