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editorial
. 2021 Oct 6;117(4):748–749. [Article in Portuguese] doi: 10.36660/abc.20210720
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Efeitos Anti-inflamatórios da Terapia com Atorvastatina na Síndrome Metabólica

Silvio A Oliveira-Junior 1, Marianna R Carvalho 1, Maria Lua M Mendonça 1, Paula F Martinez 1
PMCID: PMC8528359  PMID: 34709301

A síndrome metabólica (SM) é caracterizada por obesidade abdominal, acompanhada de níveis elevados de glicose em jejum, resistência à insulina, hipertensão arterial e dislipidemia.1 Configura importante fator de risco para o desenvolvimento de outras condições clínicas, especialmente diabetes mellitus tipo 2 (DM2) e doenças cardiovasculares.1 , 2 Uma condição frequentemente relacionada à SM é a disfunção endotelial, caracterizada por alterações da arquitetura vascular arterial, sobretudo do endotélio e da membrana basal capilar, que ocasionam complicações microvasculares. Comumente, o remodelamento da membrana basal endotelial desencadeia processos de erosão e trombose vascular em indivíduos com distúrbios metabólicos.2

Com efeito, a patogênese da disfunção endotelial é multifatorial e pode incluir quadro crônico de inflamação, decorrente da ativação de leucócitos e aumento da produção de espécies reativas de oxigênio, eventos comuns na SM.3 O fenótipo pró-inflamatório derivado desta condição torna a vasculatura altamente vulnerável a processos inflamatórios com intensidade exacerbada, resultantes de mecanismos ativados, principalmente, por fator de necrose tumoral-alfa (TNF-α), proteína C reativa, interleucina-6 (IL-6) e interleucina-8 (IL-8).4 , 5 Em geral, altos níveis desses marcadores pró-inflamatórios configuram características comuns da SM.5 - 7 Além disso, a oxidação de lipoproteínas de baixa densidade (LDL) resultante de processos de peroxidação lipídica tem efeito imunogênico e pró-inflamatório, estimulando o recrutamento e concentração de células pró-inflamatórias.5 Por conseguinte, a disfunção endotelial se associa com proliferação de células musculares lisas e hipertrofia do tecido adiposo perivascular, características comuns ao processo de remodelação vascular.8

Classicamente, o excesso de gordura depositado ao redor de vasos e órgãos viscerais contribui para a instalação de quadro inflamatório crônico de baixo grau e resistência à insulina, desordens também comuns na obesidade.9 , 10 Nesse aspecto, o tecido adiposo perivascular tem importante função parácrina e está envolvido com a ativação de variados peptídeos que têm efeitos vasculares e contribuem para a disfunção endotelial comum na SM.8 , 11 Levando-se em conta as múltiplas respostas vasculares derivadas do aumento de adiposidade corporal e instalação de desordens metabólicas e cardiovasculares, torna-se essencial que estratégias terapêuticas sejam investigadas visando o controle desses eventos na SM. Nesse contexto, inibidores da hidroximetilglutaril coenzima A redutase (HMG-CoA), também chamadas estatinas, compõem um grupo de fármacos comumente utilizados para tratamento da doença cardiovascular aterosclerótica, com o princípio de controle de níveis séricos de colesterol.12 Entre as estatinas, a atorvastatina é atualmente uma das intervenções mais utilizadas no âmbito clínico, pois possui longa meia-vida plasmática e apresenta importante tolerabilidade e segurança.13

Na presente edição dos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, Carvalho et al.,14 documentaram os efeitos do tratamento com atorvastatina sobre aspectos nutricionais, metabólicos e alterações vasculares em camundongos com SM induzida por dieta hiperglicídica. Como era esperado, a intervenção com dieta hiperglicídica resultou no aparecimento de diversos fatores associados com o desenvolvimento de SM. Os achados incluíram aumento da massa e adiposidade corporal, elevação nos níveis de colesterol total, lipoproteínas de baixa (LDL) e muito baixa (VLDL) densidades, hipertrigliceridemia, hiperglicemia e redução nos índices de lipoproteínas de alta densidade (HDL). Além disso, a dieta promoveu alterações no perfil inflamatório, com aumento nos níveis sistêmicos e teciduais de TNF-α e IL-6, hipertrofia do tecido adiposo perivascular e alterações vasculares.14 Na vigência de atorvastatina, os resultados confirmaram redução da massa e da adiposidade corporal e diminuição dos níveis de LDL, VLDL, triglicérides e aumento de HDL. No contexto morfológico, a atorvastatina reduziu a área seccional transversa e a espessura da camada média do vaso, concomitantemente à atenuação do tamanho e ao aumento no número de adipócitos perivasculares. Outro efeito importante da atorvastatina foi a redução dos níveis de TNF-α e IL-6 nos animais com SM, sugerindo que essas citocinas modulam o processo de remodelamento vascular.15

Portanto, os resultados deste trabalho mostram que intervenções com atorvastatina têm eficácia na prevenção e tratamento de condições cardiovasculares secundárias à SM. Novos estudos são necessários para elucidar potenciais mecanismos envolvidos com a instalação de desordens metabólicas e cardiovasculares na SM.

Agradecimentos

Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS/MEC – Brasil; Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq); Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul (FUNDECT).

Footnotes

Minieditorial referente ao artigo: Atorvastatina Atenua o Remodelamento Vascular em Camundongos com Síndrome Metabólica

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Arq Bras Cardiol. 2021 Oct 6;117(4):748–749. [Article in English]

Anti-Inflammatory Effects of Atorvastatin Therapy in Metabolic Syndrome

Silvio A Oliveira-Junior 1, Marianna R Carvalho 1, Maria Lua M Mendonça 1, Paula F Martinez 1

Metabolic Syndrome (MS) is a condition characterized by abdominal obesity accompanied by high fasting glucose levels, insulin resistance, arterial hypertension, and dyslipidemia.1 It configures a critical risk factor for developing other clinical conditions, primarily type 2 diabetes mellitus (DM2) and cardiovascular diseases.1 , 2 Also, MS has been associated with endothelial dysfunction, characterized by changes in arterial vascular architecture, especially in the endothelium and capillary basement membrane, causing microvascular complications. Endothelial basement membrane remodeling commonly includes erosion and vascular thrombosis processes in individuals with MS.2

Endothelial dysfunction pathogenesis is a multifactorial event and may include chronic inflammation resulting from leukocytes activation and increased production of reactive oxygen species, which are commonly associated with MS.3 The pro-inflammatory phenotype related to MS makes the vasculature highly vulnerable to tumor necrosis factor-alpha (TNF-α), C-reactive protein, interleukin-6 (IL-6), and interleukin-8 (IL-8)-induced inflammatory processes.4 , 5 High levels of these pro-inflammatory markers are commonly associated with MS.5 - 7 Likewise, low-density lipoproteins (LDL) oxidation resulting from lipid peroxidation has immunogenic and pro-inflammatory effects, based on the recruitment and accumulation of pro-inflammatory cells.5 These effects may sustain endothelial dysfunction that is associated with smooth muscle cell proliferation and perivascular adipose tissue hypertrophy, events commonly observed during the endothelial remodeling process.8

Classically, ectopic fat deposition around visceral vessels and organs has contributed to low-grade chronic inflammatory conditions and insulin resistance onset, which is also common in obesity.9 , 10 In this aspect, perivascular adipose tissue has an essential paracrine function sustained by substantial protein activation and vascular morphological changes; these mechanisms contribute to the endothelial dysfunction during MS.8 , 11 Consequently, clarifying the potential efficiency of therapeutic interventions is essential to manage MS conditions. In this context, hydroxymethyl glutaryl coenzyme A reductase inhibitors (HMG-CoA), also called statins, are commonly used to treat atherosclerotic cardiovascular disease, and have proved efficacy in normalizing serum cholesterol levels.12 Indeed, atorvastatin is currently one of the most used statins in the clinical context as it has a long plasma half-life and presents significant tolerability and safety.13

In the current edition of the Arquivos Brasileiros de Cardiologia, Carvalho et al.14 documented beneficial effects of atorvastatin intervention on nutritional, metabolic and vascular aspects in an experimental model of hyperglycemic diet-induced metabolic syndrome. As expected, hyperglycidic diet-induced MS was accompanied by several disorders, as increased body mass and adiposity, high levels of total cholesterol, low (LDL) and very low (VLDL) densities hypertriglyceridemia, hyperglycemia, and reduced high-density lipoprotein (HDL) levels. Moreover, the dietary intervention promoted inflammatory effects, sustained by an increase in systemic and tissue levels of TNF-α and IL-6, perivascular adipose tissue hypertrophy and vascular changes.14 In response to atorvastatin, findings included a reduction in body mass and adiposity measures and decreased LDL, VLDL, triglycerides, as well as increased HDL levels. In the morphological context, atorvastatin reduced the transverse sectional area and the thickness of the vessel’s media layer and reduced the size and number of perivascular adipocytes. Another substantial atorvastatin effect included the reduction of TNF-α and IL-6 levels into MS, suggesting that these cytokines modulate the endothelial remodeling process.15

Therefore, the results of this study show that atorvastatin interventions may be effective as a medical intervention for preventive strategy and treatment of vascular conditions associated with MS. However, further studies are needed to elucidate potential mechanisms involved with metabolic and cardiovascular disorders in MS.

Acknowledgments

Federal University of Mato Grosso do Sul – UFMS/MEC – Brasil; Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq); Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul (FUNDECT).

Footnotes

Short Editorial related to the article: Atorvastatin Attenuates Vascular Remodeling in Mice with Metabolic Syndrome


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