A síndrome metabólica (SM) é caracterizada por obesidade abdominal, acompanhada de níveis elevados de glicose em jejum, resistência à insulina, hipertensão arterial e dislipidemia.1 Configura importante fator de risco para o desenvolvimento de outras condições clínicas, especialmente diabetes mellitus tipo 2 (DM2) e doenças cardiovasculares.1 , 2 Uma condição frequentemente relacionada à SM é a disfunção endotelial, caracterizada por alterações da arquitetura vascular arterial, sobretudo do endotélio e da membrana basal capilar, que ocasionam complicações microvasculares. Comumente, o remodelamento da membrana basal endotelial desencadeia processos de erosão e trombose vascular em indivíduos com distúrbios metabólicos.2
Com efeito, a patogênese da disfunção endotelial é multifatorial e pode incluir quadro crônico de inflamação, decorrente da ativação de leucócitos e aumento da produção de espécies reativas de oxigênio, eventos comuns na SM.3 O fenótipo pró-inflamatório derivado desta condição torna a vasculatura altamente vulnerável a processos inflamatórios com intensidade exacerbada, resultantes de mecanismos ativados, principalmente, por fator de necrose tumoral-alfa (TNF-α), proteína C reativa, interleucina-6 (IL-6) e interleucina-8 (IL-8).4 , 5 Em geral, altos níveis desses marcadores pró-inflamatórios configuram características comuns da SM.5 - 7 Além disso, a oxidação de lipoproteínas de baixa densidade (LDL) resultante de processos de peroxidação lipídica tem efeito imunogênico e pró-inflamatório, estimulando o recrutamento e concentração de células pró-inflamatórias.5 Por conseguinte, a disfunção endotelial se associa com proliferação de células musculares lisas e hipertrofia do tecido adiposo perivascular, características comuns ao processo de remodelação vascular.8
Classicamente, o excesso de gordura depositado ao redor de vasos e órgãos viscerais contribui para a instalação de quadro inflamatório crônico de baixo grau e resistência à insulina, desordens também comuns na obesidade.9 , 10 Nesse aspecto, o tecido adiposo perivascular tem importante função parácrina e está envolvido com a ativação de variados peptídeos que têm efeitos vasculares e contribuem para a disfunção endotelial comum na SM.8 , 11 Levando-se em conta as múltiplas respostas vasculares derivadas do aumento de adiposidade corporal e instalação de desordens metabólicas e cardiovasculares, torna-se essencial que estratégias terapêuticas sejam investigadas visando o controle desses eventos na SM. Nesse contexto, inibidores da hidroximetilglutaril coenzima A redutase (HMG-CoA), também chamadas estatinas, compõem um grupo de fármacos comumente utilizados para tratamento da doença cardiovascular aterosclerótica, com o princípio de controle de níveis séricos de colesterol.12 Entre as estatinas, a atorvastatina é atualmente uma das intervenções mais utilizadas no âmbito clínico, pois possui longa meia-vida plasmática e apresenta importante tolerabilidade e segurança.13
Na presente edição dos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, Carvalho et al.,14 documentaram os efeitos do tratamento com atorvastatina sobre aspectos nutricionais, metabólicos e alterações vasculares em camundongos com SM induzida por dieta hiperglicídica. Como era esperado, a intervenção com dieta hiperglicídica resultou no aparecimento de diversos fatores associados com o desenvolvimento de SM. Os achados incluíram aumento da massa e adiposidade corporal, elevação nos níveis de colesterol total, lipoproteínas de baixa (LDL) e muito baixa (VLDL) densidades, hipertrigliceridemia, hiperglicemia e redução nos índices de lipoproteínas de alta densidade (HDL). Além disso, a dieta promoveu alterações no perfil inflamatório, com aumento nos níveis sistêmicos e teciduais de TNF-α e IL-6, hipertrofia do tecido adiposo perivascular e alterações vasculares.14 Na vigência de atorvastatina, os resultados confirmaram redução da massa e da adiposidade corporal e diminuição dos níveis de LDL, VLDL, triglicérides e aumento de HDL. No contexto morfológico, a atorvastatina reduziu a área seccional transversa e a espessura da camada média do vaso, concomitantemente à atenuação do tamanho e ao aumento no número de adipócitos perivasculares. Outro efeito importante da atorvastatina foi a redução dos níveis de TNF-α e IL-6 nos animais com SM, sugerindo que essas citocinas modulam o processo de remodelamento vascular.15
Portanto, os resultados deste trabalho mostram que intervenções com atorvastatina têm eficácia na prevenção e tratamento de condições cardiovasculares secundárias à SM. Novos estudos são necessários para elucidar potenciais mecanismos envolvidos com a instalação de desordens metabólicas e cardiovasculares na SM.
Agradecimentos
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS/MEC – Brasil; Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq); Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul (FUNDECT).
Footnotes
Minieditorial referente ao artigo: Atorvastatina Atenua o Remodelamento Vascular em Camundongos com Síndrome Metabólica
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