O grupo de doenças cardiovasculares (DCV) agrega as principais causas de morte no Brasil e no conjunto dos países em desenvolvimento.1,2 A doença isquêmica do coração (DIC) ou doença arterial coronariana (DAC) tem sido por muitos anos a principal causa de morte na população brasileira,1 com exceção do ano de 2020,3 quando a doença causada pelo novo coronavírus (COVID-19) foi a primeira causa de morte, seguida pela DIC. A DIC foi a principal causa de anos de vida perdidos na população brasileira em 2016.4
Em 2017, foi estimada uma prevalência de DAC de 1,75% (2.500.000 de indivíduos), na população brasileira maior que 20 anos.1 As maiores prevalências estavam nas regiões Sul e Sudeste, com taxa de mortalidade padronizada decrescente, mas com aumento da prevalência desde 1990.1 Com estimativa de incidência de cerca de 121 mil casos por ano1 em 2017, a DAC tem sido um importante problema de saúde pública no país.
O estudo ERICO,5 coorte de pacientes com episódio de síndrome coronária aguda (SCA) atendidos em um hospital secundário, entre outros estudos, é peça importante na produção do conhecimento sobre prognóstico de curto e longo prazos de pacientes em cuidado secundário e DCA.
Uma pergunta que está presente diante dos pacientes com SCA é qual a melhor intervenção, quais as evidências, qual o prognóstico. Como informar aos pacientes e as famílias sobre as chances da sobrevida de longo prazo se ainda não há um conhecimento consolidado, muitas questões ainda não respondidas para a realidade brasileira, como, por exemplo, impacto dos determinantes sociais6 no prognóstico. Quais as evidências sobre o melhor tratamento?
A estatística cardiovascular1 publicada em 2020 revelou que “foram realizadas 78.575 angioplastias coronárias pelo SUS em 2018, com mortalidade hospitalar de 2,96% e média de permanência hospitalar de 4,5 dias”. Com esse número de angioplastias, a possibilidade de uso das melhores evidências para informar sobre o melhor cuidado e procedimentos, aumentam as chances de beneficiar não somente o paciente indivíduo, mas principalmente, os milhares de doentes com SCA incidente, reduzindo a mortalidade populacional e melhorando a qualidade de vida. 10% das hospitalizações7 no SUS foram por DCV em 2019.
O uso da tecnologia para o diagnóstico e tratamento durante uma manifestação aguda da doença (particularmente acidente vascular cerebral ou infarto agudo do miocárdio [IAM]) foi fundamental em muitos países para redução de mortes e prolongamento da vida quando a DCV se manifesta.8
Cristina-Bruno et al.,9 revelam no artigo que “não só os pacientes com doença de múltiplos vasos como também os com doença de um vaso tiveram alto risco de mortalidade no longo prazo pós-SCA. Esses achados destacam a importância de se ter uma abordagem melhor no tratamento e no controle de FRC, mesmo em indivíduos com risco aparentemente baixo, atendidos em cuidado secundário”.
O surgimento e o rápido crescimento de fatores de risco cardiovascular (FRC) em países em desenvolvimento são responsáveis pelo forte aumento na morbidade/mortalidade relacionada a DIC nas últimas décadas, trazendo a necessidade de um plano de controle epidemiológico destinado a prevenir DCV em países em desenvolvimento.4,5,7,10
A maior mortalidade por DAC está relacionada com um menor nível socioeconômico,5 países de maior renda têm taxa de mortalidade menor que países de média renda.1,4 Os novos tratamentos da DAC com uso de novas tecnologias têm reduzido a mortalidade, mas não podem reduzir a carga da doença e a perda da saúde1,4 associada com a DAC. Os fatores de risco como obesidade, dieta, tabagismo e sedentarismo têm aumentado o risco para o desenvolvimento da doença.1,2,4–6,9 A associação crescente DAC e diabetes, vem contribuindo para aumento do risco de óbito.11–13
A linha de base do estudo ERICO6 mostrou “uma média de idade foi de 62,7 anos, 58,5% homens e 77,4% tinham 8 anos ou menos de estudo. Os fatores de risco cardiovascular mais comuns foram hipertensão (76%) e sedentarismo (73,4%). Apenas 29,2% tinham história prévia de doença coronariana”.6
No período 1990-2017, a prevalência de DAC aumentou nos dois sexos (de 1,08% para 1,75%), de maneira mais proeminente em homens que em mulheres, aumentando com o envelhecimento da população.1,8
Considerando a importância do tratamento da morbidade cardiovascular e seus eventos agudos, a tendência de redução da mortalidade por DAC e, o consequente, aumento da sobrevida dos pacientes com SCA e obstrução coronariana, trouxe a necessidade de elevar o conhecimento sobre o tratamento,9 o melhor uso das informações clínicas para o prognóstico8,13 e prevenção dos FRC.4 Para tanto seria fundamental conhecer as práticas dos profissionais de saúde e seu nível de adesão às recomendações de boas práticas.14
Assim, conhecer com mais profundidade, produzir evidências, buscar impacto a nível populacional8,13,14 e, ao mesmo tempo, colocar no centro do debate sobre redução da prevalência e incidência de SCA e DAC as políticas de saúde pública8 para enfrentamento do crescente aumento dos FRC, como a forma mais efetiva para reduzir as perdas de saúde e os anos de vida perdidos devido a DAC.4
Footnotes
Minieditorial referente ao artigo: O Prognóstico da Doença Arterial Coronariana em um Hospital Público no Brasil: Achado do Estudo ERICO
Referências
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