O acúmulo de lipoproteínas contendo apolipoproteína B (ApoB), principalmente lipoproteína de baixa densidade (LDL), na íntima arterial tem sido atribuído a um dos passos iniciais da aterogênese.1 Em outros estudos, a LDL oxidada e os macrófagos são os principais fatores patogênicos para o desenvolvimento da aterosclerose.2,3 Por sua vez, há evidências crescentes do papel protetor de autoanticorpos contra LDL oxidada (oxLDL-AboxLDL-Ab na aterogênese, fato que pode ser potencializado pela lipoproteína de alta densidade (HDL).4,5
Neste volume dos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, Nunez et al.,6 avaliaram a hipótese de que indivíduos com níveis mais altos de HDL-C apresentariam níveis elevados de oxLDL-Ab. Trata-se de um estudo transversal que incluiu 193 indivíduos consecutivos saudáveis ≥ 18 anos e excluiu pacientes com doença arterial coronariana (DAC), acidente vascular cerebral (AVC), causas secundárias de elevação ou redução do HDL, uso de hipolipemiantes, alcoolismo e tabagismo. Os indivíduos foram submetidos a exame físico detalhado, medidas da pressão arterial e ultrassonografia de carótidas, além de análises bioquímicas de sangue periférico. Dividiu-se os participantes em tercis, de acordo com os níveis de HDL-C: baixo (< 68mg/dL: n = 59); intermediário (68-80 mg/dL: n= 71) e alto (> 80 mg/dL: n =63).
Quando comparado ao tercil mais baixo de HDL-C, o tercil mais alto apresentava mais mulheres, idades mais avançadas e maior concentração de colesterol. As atividades da lipase hepática (LH) e da proteína de transferência de éster de colesterol (CETP) estavam reduzidas; e LH e a proteína de transferência de fosfolípides (PLTP) aumentaram no tercil mais alto de HDL-C em comparação ao tercil mais baixo. Não houve diferenças significativas nos níveis da proteína C reativa de alta sensibilidade (hsCRP) e do fator de necrose tumoral (TNFα). Entretanto, os níveis de oxLDL-Ab foram significativamente maiores no grupo com HDL-C alta, em comparação ao grupo com HDL-C baixa. A análise de regressão linear revelou que os níveis de OxLDL-Ab foram influenciados pela idade, HDL-C, tercis de HDL-C, HDL-3C e ApoAI. Na análise de regressão ajustada, apenas HDL-C e ApoAI relacionaram-se independentemente aos níveis de oxLDL-Ab.6
A aterosclerose é uma doença inflamatória crônica da parede arterial, caracterizada pela formação de placas contendo lipídios, tecido conjuntivo e células imunológicas na íntima das artérias. A LDL oxidada seria um gatilho para ativar esta resposta imune.7 O estudo CANTOS comprovou, pela primeira vez, que o tratamento anti-inflamatório (no caso, com o anticorpo contra interleucina IL-1β) reduziu desfechos clínicos em pacientes com infarto agudo do miocárdio (IAM).8 Subsequentemente, os efeitos anti-inflamatórios da colchicina reduziram eventos em pacientes com IAM9 ou DAC.10
No estudo de Nunez et al.,6 os autores observaram correlação positiva e independente entre os níveis séricos da HDL-C e ox-LDL-Ab. Isto está em concordância com a hipótese de que a HDL modularia a imunidade humoral da placa aterosclerótica e mostra o papel da oxLDL-Ab como potencial marcador de doença cardiovascular. Dentre as limitações do estudo, cita-se o fato de não terem dosado as interleucinas (especialmente IL5, que induziria a liberação de ox-LDL-Ab induzida pela HDL-C). Além disso, trata-se de um estudo realizado em um único centro e com uma amostra relativamente pequena (n = 193). De toda forma, é um estudo muito elegante e que abre caminho para futuras pesquisas.
Footnotes
Minieditorial referente ao artigo: Associação Positiva entre Autoanticorpos contra LDL Oxidada e HDL-C: Um Novo Mecanismo para Cardioproteção de HDL?
Referências
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