Este interessante estudo1 de prevalência analisou a associação entre a fibrilação (FA) e o flutter atrial (FT), com o status da saúde cardiovascular, em coorte derivado do projeto ELSA-BRASIL, em desenho observacional e do tipo transversal. Foram incluídos nesta análise 13.141 participantes. Métricas de biomarcadores e dados epidemiológicos foram inseridos, com posterior análise de associação, em modelo ajustado e em regressão logística para as variáveis de interesse.
Os mecanismos de associação entre FA e o risco de acidente vascular cerebral (AVC) são bem conhecidos. A FA está associada à estase sanguínea anormal, que envolve hipocontratilidade atrial, remodelação estrutural atrial, ativação plaquetária e da cascata de coagulação, promovendo a formação de trombos e isquemia.2,3 Desta forma, a FA é preditor independente de doenças isquêmicas, notadamente o AVC. O risco estimado de FA durante a vida é entre 22% e 26%.4,5 Métricas para avaliar o impacto desta associação são constantemente publicadas em documentos, como as recomendações do Comitê de Metas e Métricas da Força-Tarefa de Planejamento Estratégico da American Heart Association, que desenvolveu estratégias de monitoramento contínuo e em longo prazo.6 Dentro de um conceito generalista, a saúde cardiovascular deve conter aspectos clínicos e comportamentais, como o estilo de vida adequado (não fumar, evitar a obesidade), concomitante a correção e adequação de biomarcadores metabólicos, como níveis de colesterol e triglicérides; glicemia; e controle adequado da pressão arterial. Desta forma, este comitê propôs um desafio para o alcance destas metas: “Até 2020, melhorar a saúde cardiovascular de todos os americanos em 20%, reduzindo as mortes por doenças cardiovasculares e AVC em 20%”. Desta forma, a identificação de indivíduos com risco para desenvolver FA é um imperativo clínico, pois a modificação de algumas variáveis pode reduzir a incidência desta afecção.7,8
Em estudo recentemente publicado, foi demonstrado que, em modelo utilizando “machine learning”, usando o eletrocardiograma (ECG) para estimar o risco de FA, foram robustos e validados em várias populações utilizando-se de rigorosas métricas epidemiológicas. A previsão de FA pode ser realizada pela avaliação dos fatores de risco clínicos ou análise de ECGs baseada em inteligência artificial. Entretanto, a combinação de ambos fornece maior precisão preditiva.9
No estudo intitulado: Saúde Cardiovascular e Fibrilação ou Flutter Atrial: Um Estudo Transversal do ELSA-Brasil,1 não foram observadas associações significativas entre os escores globais (saúde cardiovascular ideal) e o diagnóstico de FA, pelo menos parcialmente, em virtude de correlações antagônicas com a pressão arterial e com o colesterol total, dados estes extensivamente discutidos neste manuscrito. Este paradoxo entre o colesterol e a FA, foi consistente com dados previamente publicados. Em revisão sistemática, Guan et al. apontaram que níveis elevados de colesterol total (definidos em estudos com pontos de corte entre 220 e 260 mg/dL), estavam associados à FA, [HR 0,81 (IC 95%: 0,72-0,92)]. Na mesma revisão sistemática, análises usando LDL-C em vez de níveis de colesterol total, produziram resultados semelhantes.10 Entretanto, existem robustas evidências de que estatinas têm um benefício potencial na saúde incidência de FA ou FT.11,12 Desta maneira, métricas devem considerar um perfil não ideal de saúde cardiovascular se os pacientes estiveram sob medicação hipolipemiante, independentemente de seus níveis de colesterol total.
Com relação à hipertensão arterial, o presente manuscrito proveniente da coorte ELSA-BRASIL, analisou de forma separada as métricas dos escores globais de saúde. Os autores deste encontraram uma forte e inversa associação da pressão arterial com a presença de FA. Destacando desta forma, a relevância do controle e do tratamento adequado deste importante fator de risco, em consonância com dados da literatura.13–15
Os autores declaram algumas limitações que poderiam impactar nos resultados obtidos, como o pequeno número de participantes e sobretudo pela alta proporção de indivíduos com menos de 60 anos, havendo possível influência dos achados de “não associação” entre o diagnóstico FA e os escores de saúde global avaliados.
Footnotes
Minieditorial referente ao artigo: Saúde Cardiovascular e Fibrilação ou Flutter Atrial: Um Estudo Transversal do ELSA-Brasil
Referências
- 1.Santos IS, Lotufo PA, Goulart AC, Brant LCC, Pinto MM, Filho, Pereira AC, Barreto SM, et al. Cardiovascular Health and Atrial Fibrillation or Flutter: A Cross-Sectional Study from ELSA-Brasil. Arq Bras Cardiol. 2022;119(5):724–731. doi: 10.36660/abc.20210970. [DOI] [PMC free article] [PubMed] [Google Scholar]
- 2.Kim YH, Roh SY. The Mechanism of and Preventive Therapy for Stroke in Patients with Atrial Fibrillation. J Stroke. 2016;18(2):129–137. doi: 10.5853/jos.2016.00234. [DOI] [PMC free article] [PubMed] [Google Scholar]
- 3.Corley SD, Epstein AE, DiMarco JP, Domanski MJ, Geller N, Greene HL, et al. Relationships Between Sinus Rhythm, Treatment, and Survival in the Atrial Fibrillation Follow-Up Investigation of Rhythm Management (AFFIRM) Study. Circulation. 2004;109(12):1509–1513. doi: 10.1161/01.CIR.0000121736.16643.11. [DOI] [PubMed] [Google Scholar]
- 4.Andrade J, Khairy P, Dobrev D, Nattel S. The Clinical Profile and Pathophysiology of Atrial Fibrillation: Relationships Among Clinical Features, Epidemiology, and Mechanisms. Circ Res. 2014;114(9):1453–1468. doi: 10.1161/CIRCRESAHA.114.303211. [DOI] [PubMed] [Google Scholar]
- 5.Brambatti M, Connolly SJ, Gold MR, Morillo CA, Capucci A, Muto C, et al. Temporal Relationship between Subclinical Atrial Fibrillation and Embolic Events. Circulation. 2014;129(21):2094–2099. doi: 10.1161/CIRCULATIONAHA.113.007825. [DOI] [PubMed] [Google Scholar]
- 6.Lloyd-Jones DM, Hong Y, Labarthe D, Mozaffarian D, Appel LJ, Van Horn L, et al. Defining and Setting National Goals for Cardiovascular Health Promotion and Disease Reduction: The American Heart Association’s strategic Impact Goal through 2020 and Beyond. Circulation. 2010;121(4):586–613. doi: 10.1161/CIRCULATIONAHA.109.192703. [DOI] [PubMed] [Google Scholar]
- 7.Voskoboinik A, Kalman JM, Silva A, Nicholls T, Costello B, Nanayakkara S, et al. Alcohol Abstinence in Drinkers with Atrial Fibrillation. N Engl J Med. 2020;382(1):20–28. doi: 10.1056/NEJMoa1817591. [DOI] [PubMed] [Google Scholar]
- 8.Middeldorp ME, Pathak RK, Meredith M, Mehta AB, Elliott AD, Mahajan R, et al. PREVEntion and regReSsive Effect of Weight-Loss and Risk Factor Modification on Atrial Fibrillation: The REVERSE-AF study. Europace. 2018;20(12):1929–1935. doi: 10.1093/europace/euy117. [DOI] [PubMed] [Google Scholar]
- 9.Khurshid S, Friedman S, Reeder C, Di Achille P, Diamant N, Singh P, et al. ECG-Based Deep Learning and Clinical Risk Factors to Predict Atrial Fibrillation. Circulation. 2022;145(2):122–133. doi: 10.1161/CIRCULATIONAHA.121.057480. [DOI] [PMC free article] [PubMed] [Google Scholar]
- 10.Guan B, Li X, Xue W, Tse G, Waleed KB, Liu Y, et al. Blood Lipid Profiles and Risk of Atrial Fibrillation: A Systematic Review and Meta-Analysis of Cohort Studies. J Clin Lipidol. 2020;14(1):133.e3–142.e3. doi: 10.1016/j.jacl.2019.12.002. [DOI] [PubMed] [Google Scholar]
- 11.Hung CY, Lin CH, Wang KY, Huang JL, Hsieh YC, Loh el-W, et al. Dosage of Statin, Cardiovascular Comorbidities, and Risk of Atrial Fibrillation: A Nationwide Population-Based Cohort Study. Int J Cardiol. 2013;168(2):1131–1136. doi: 10.1016/j.ijcard.2012.11.087. [DOI] [PubMed] [Google Scholar]
- 12.Fauchier L, Clementy N, Babuty D. Statin Therapy and Atrial Fibrillation: Systematic Review and Updated Meta-Analysis of Published Randomized Controlled Trials. Curr Opin Cardiol. 2013;28(1):7–18. doi: 10.1097/HCO.0b013e32835b0956. [DOI] [PubMed] [Google Scholar]
- 13.Ogunmoroti O, Michos ED, Aronis KN, Salami JA, Blankstein R, Virani SS, et al. Life’s Simple 7 and the Risk of Atrial Fibrillation: The Multi-Ethnic Study of Atherosclerosis. Atherosclerosis. 2018;275:174–181. doi: 10.1016/j.atherosclerosis.2018.05.050. [DOI] [PubMed] [Google Scholar]
- 14.Garg PK, O’Neal WT, Chen LY, Loehr LR, Sotoodehnia N, Soliman EZ, et al. American Heart Association’s Life Simple 7 and Risk of Atrial Fibrillation in a Population Without Known Cardiovascular Disease: The ARIC (Atherosclerosis Risk in Communities) Study. J Am Heart Assoc. 2018;7(8):e008424. doi: 10.1161/JAHA.117.008424. [DOI] [PMC free article] [PubMed] [Google Scholar]
- 15.Garg PK, O’Neal WT, Ogunsua A, Thacker EL, Howard G, Soliman EZ, et al. Usefulness of the American Heart Association’s Life Simple 7 to Predict the Risk of Atrial Fibrillation (from the REasons for Geographic And Racial Differences in Stroke [REGARDS] Study) Am J Cardiol. 2018;121(2):199–204. doi: 10.1016/j.amjcard.2017.09.033. [DOI] [PMC free article] [PubMed] [Google Scholar]
